Leia o trecho apresentado a seguir.
ZÉ PAULO
[...] Mas preciso alertá-lo: esta é uma cidade invisível...
ÁLVARES
Sempre foi.
ZÉ PAULO
Mas hoje está pior. Só com faro infravermelho, ou o ouvido tortuoso de um peão, é possível encontrar a cidade onde ela se encontra: ao rés do chão...
ÁLVARES
Isso é um poema?
ZÉ PAULO
Talvez.
ÁLVARES
Lá vem você... todo blasé.
ZÉ PAULO
O que eu quero dizer, Álvares, é que no seu tempo ela podia ser invisível porque era tão pequena, pacata e provinciana; mas hoje ela é mais de setecentas cidades, uma empilhada em cima da outra, e os rios foram todos soterrados, já não é possível navegar. Por isso é preciso se aproximar com cuidado, abrindo os ouvidos para enxergar o caminho.
[…]
ZÉ PAULO
Ninguém sabe o que se passa no subsolo da cidade. Esgoto sanitário, esgoto industrial, água de lavagem, óleos lubrificantes, combustíveis e solventes... Ninguém sabe. Tudo nesta cidade foi feito de forma independente, ao deus-dará, sem levar em conta o que veio antes, o que virá depois. Isso vale também para os buracos de metrô, gás, eletricidade, informações... O fato é que ninguém sabe o que existe no subsolo. Do empreendimento imobiliário mais suntuoso ao buraco mais miserável, ninguém sabe em que cidade realmente está.
MARTINS, Alberto. Uma noite em cinco atos. São Paulo: Editora 34, 2009. p. 84-85; 88.
MARTINS, Alberto. Uma noite em cinco atos. São Paulo: Editora 34, 2009. p. 84-85; 88.
A descrição da cidade de São Paulo, em Uma noite em cinco atos, de Alberto Martins, estabelece uma comparação entre o desenvolvimento urbano e as transformações literárias no século XX. Essa comparação se efetiva no contraponto entre