Leia o trecho de Canaã, de Graça Aranha:
“Lentz se esforçava por dormir e se debatia inutilmente para afastar os tumultuosos pensamentos que lhe galopavam na cabeça. As visões acumuladas nos últimos dias de travessia da mata persistiam em toda a sua força. Ora sentia-se esbraseado com o sol que inflamava as coisas e lhe queimava o sangue; ora sentia-se passar pela sombra úmida da floresta cuja exuberância e vida se filtravam deliciosamente até à sua alma; ora era o rio imenso, pujante que corria para ele, impelido por uma força desse poder misterioso que animava as moléculas mais íntimas de todo aquele mundo novo. E Lentz via por toda parte o homem branco apossando-se resolutamente da terra e expulsando definitivamente o homem moreno que ali se gerara. E Lentz sorria com orgulho na perspectiva da vitória e do domínio de sua raça. Um desdém pelo mulato, em que ele exprimia o seu desprezo pela languidez, pela fatuidade e fragilidade deste, turvou-lhe a visão radiosa que a natureza do país lhe imprimira no espírito. Tudo nele era agora um sonho de grandeza e triunfo... Aquelas terras seriam o lar dos batalhadores eternos, aquelas florestas seriam consagradas aos cultos temerosos das virgens ferozes e louras... Era tudo um recapitular da antiga Germânia. [...]”
ARANHA, Graça. Canaã. São Paulo, Ediouro, s/d. p. 78-79.
Canaã é um romance pré-modernista que narra a trajetória de dois imigrantes alemães na região de Porto Cachoeiro, no Espírito Santo: Milkau e Lentz.
O primeiro é um idealista e vê o Brasil como uma espécie de terra prometida; já o segundo, pelo excerto lido, pode-se afirmar que seja: