Leia o trecho de Inocência, de Visconde de Taunay, para responder à questão.
O legítimo sertanejo, explorador dos desertos, não tem em geral família. Enquanto moço, o seu fim único é devassar terras, pisar campos onde ninguém antes pusera pé, vadear rios desconhecidos, despontar cabeceiras1 e furar matas que descobridor algum até então haja varado.
Cresce-lhe o orgulho na razão direta da extensão e importância das viagens empreendidas; o seu maior gosto cifra-se em enumerar as correntes caudais que transpôs, os ribeirões que batizou, as serras que trasmontou e os pantanais que afoitamente cortou, quando não levou dias e dias a rodeá-los com rara paciência.
Cada ano que finda lhe traz mais um valioso conhecimento e acrescenta uma pedra ao monumento da sua inocente vaidade.
– Ninguém pode comigo, exclama ele enfaticamente. Nos campos da Vacaria, no sertão do Mimoso e nos pantanos2 do Pequiri, sou rei.
E esta presunção de realeza infunde-lhe certo modo de falar e de gesticular majestático em sua singela manifestação.
Notas do autor:
1 despontar cabeceiras: rodear as nascentes dos rios, procurando sempre terreno enxuto.
2 pantanos: no interior pronuncia-se a palavra grave e não esdrúxula, mais conforme assim com a etimologia.
(Inocência, 1994.)
O emprego do termo “pantanos” – sem acento, destacado em itálico e seguido da nota de rodapé referente à sua pronúncia – revela, acerca do autor,