Leia o trecho do texto de Ciro Marcondes Filho para responder à questão.
Quando Marcel acariciava Albertine, quando ele a tinha sobre seus joelhos e sua cabeça sobre suas mãos, ele sentia que manuseava uma pedra que encerrava a salina de oceanos imemoriais; ele percebia que tocava somente o invólucro fechado de uma pessoa, que, como todos nós, era um ser insondável, do qual muito pouco se poderia conhecer. Como ela, somos todos dotados de uma incomunicabilidade de origem. Jamais o outro nos conhecerá; e nós, o outro. Não conseguimos sair de nós, dizia Lucrécia, tudo o que conhecemos do outro é somente a partir de nós mesmos.
A comunicação, portanto, no sentido de partilhar, de tornar comum, de dividir, é um equívoco. Nada pode ser tornado comum. Nada se passa, nada se repassa. Por isso, comunicação não é transmissão, transferência, deslocamento de nada. Essas definições carregam em si a ideia equivocada de que há um objeto, uma coisa, algo que é movido de um a outro.
O Outro para nós será sempre um mistério, uma caixa-preta, do qual muito pouco podemos conhecer.
(Das coisas que nos fazem pensar, 2014. Adaptado.)
O autor do texto utiliza linguagem figurada em: