Leia os excertos retirados do texto “Teses revisionistas sobre 1964: democracia e golpismo”, de autoria do sociólogo Caio Navarro de Toledo e responda ao que se pede:
Um acadêmico que tem presença constante na mídia empresarial (TV’s, rádios e grandes jornais) afirmou num artigo: “[...] O que une ambos os lados é que todos querem chegar ao poder por golpe, seja os militares, seja Brizola e mesmo Jango, no caso para continuar no poder. Tanto é assim que o golpe veio.” (VILLA, Marco Antonio, 2004).
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o respeitado filósofo marxista Leandro Konder – numa entrevista publicada pela revista Margem esquerda – não deixou de utilizar a expressão omitida nos textos de Ferreira e Figueiredo. Afirmou Konder (2004) que “[...] o golpismo, entranhado nos costumes e na cultura política da sociedade brasileira, se manifestava também no campo da esquerda.”
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Leôncio Martins Rodrigues (2004), ex-docente da USP e Unicamp, em 2004, numa entrevista ao Estadão, afirmou o sociólogo: “[...] venceu a direita e o golpe representou um terrível retrocesso; se vencesse a esquerda, haveria outro retrocesso, talvez pior, aprofundando o modelo populista.”
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Diante da ausência de documentos e evidências sobre o “golpismo” do presidente da República, não se pode senão dar razão ao jornalista Freitas (2013) que, recentemente, ponderou: “[...] quaisquer que sejam os erros atribuíveis a João Goulart [...], entre eles não está ato algum de traição à democracia”
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Movimento político ainda em gestação e polêmico dentro das esquerdas, os “Grupos dos Onze”, a rigor, não tinham sido concebidos para ter uma orientação militar, mas, sim, para resistir ao golpe da direita. A ideia era a de reviver agosto de 1961 quando a liderança de Brizola foi decisiva ao barrar o golpe da junta militar contra a posse de Goulart.
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Em duas palavras, a hipótese do golpismo das esquerdas, formuladas por autores democráticos, favorece, intencionalmente, as teses da direita golpista para quem, em abril 1964, houve uma “contra-revolução preventiva”. Mais grave: o golpe de 1964 fica, assim, justificado e legitimado, pois teria evitado que o Brasil – como não se cansam de repetir os apologetas do golpe – fosse entregue à barbárie representada pela implantação do comunismo ateu, apátrida e terrorista...
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Por fim, a tese de uma Constituinte, levantada pelo PCB e Prestes, teria características golpistas? Concedamos a palavra a uma historiadora: “[...] a convocação de uma Constituinte, que implica amplíssima mobilização política nacional e eleições mais gerais, pode ser vista como um equívoco naquele momento, mas é impossível identificar golpismo nela.” (VIANNA, 2004).
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Tais como os ideólogos golpistas civis e militares, estes autores não apresentam quaisquer documentos que comprovem planos e complôs conspiratórios de setores de esquerda visando a ruptura do regime democrático; na verdade, durante todo o período de vigência da Carta de 1946, nenhuma ação objetiva das esquerdas é revelada para comprovar o chamado golpismo das esquerdas. Embora não apreciemos a expressão, deve ser dito que não houve nenhuma intentona comunista durante os anos 1950 e 1960.
Fonte: TOLEDO, Caio Navarro de. Teses revisionistas sobre 1964: democracia e golpismo. In: VALLE, Maria Ribeiro do (org.). 1964-2014: Golpe Militar, História, Memória e Direitos Humanos. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2014, p.27-39 – adaptado.
A história é uma área do saber que sempre está aberta para visitação dos historiadores e outros estudiosos, não existe, portanto, uma verdade absoluta acerca do passado, mas uma série de textos e saberes que são construídos e reconstruídos à luz da descoberta de novos documentos, contudo, certos momentos dramáticos de nossa história política, especialmente como as que estão em um passado próximo, gera uma série de controvérsias e mexe com paixões e convicções.
Com essas considerações em mente e a partir da leitura dos excertos e do seu conhecimento sobre o processo que levou ao golpe de 1964, leia as afirmações a seguir:
I. Fica claro que se trata de uma revisão histórica a respeito do golpe de 64, pois os autores referidos chegaram a um consenso de que tanto os políticos ligados às diretas quanto os ligados as esquerdas não atribuíam valor à democracia e ambos os grupos queriam dar um golpe de Estado.
II. Em 2004, quando ocorreram reflexões sobre os 40 anos do Golpe Militar, predominavam as interpretações de que ambos os lados que disputavam o poder não respeitavam a democracia e queriam tomar o poder, contudo, por volta de 2014, chegaram à conclusão de que a atribuição da tese golpista em relação às esquerdas não tinha fundamento histórico.
III. João Goulart foi acusado de comunista e as marchas populares em defesa de “Deus e da Família”, os políticos conservadores e os meios de comunicação do período passaram a defender a ideia de que precisavam evitar um golpe comunista no Brasil, o que contribuiu para a atuação política dos militares.
IV. As teses que atribuem a intenção golpista das esquerdas estão amparadas em ampla documentação e contribuem para elucidar esse período tão polêmico da história, pois a permanência no modelo populista e, posteriormente, comunista teria levado o país ao retrocesso.
V. As disputas em torno dos discursos e práticas sociais e políticas que permeiam os anos que antecederam o golpe são recheadas de polêmicas que chegam até nossos dias, alguns tanto intelectuais de direita quanto de esquerda ainda defendem que a intervenção militar foi uma faceta da mentalidade pouco democrática do período, enquanto outros afirmam que as lideranças políticas das esquerdas buscavam fazer as reformas e a justiça social por meio da legalidade.
Estão corretas as seguintes afirmações: