Leia os fragmentos dos contos “Cem anos de perdão” e “Restos do carnaval”, extraídos da obra Felicidade Clandestina, de Clarice Lispector:
Quem nunca roubou não vai me entender. E quem nunca roubou rosas, então é que jamais poderá me entender. Eu, em pequena, roubava rosas
Havia em Recife inúmeras ruas, as ruas dos ricos, ladeadas por palacetes que ficavam no centro de grandes jardins. Eu e uma amiguinha brincávamos muito de decidir a quem pertenciam os palacetes. “Aquele branco é meu.” “Não, eu já disse que os brancos são meus.” “Mas esse não é totalmente branco, tem janelas verdes.” Parávamos às vezes longo tempo, a cara imprensada nas grades, olhando.
LISPECTOR, Clarice. Cem anos de perdão. In: Felicidade Clandestina. Rio de Janeiro: Rocco, 1971. p. 39.
No entanto, na realidade, eu dele pouco participava. Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me haviam fantasiado. Em compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé de escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se divertirem. Duas coisas preciosas eu ganhava então e economizava-as com avareza para durarem os três dias: um lançaperfume e um saco de confete. Ah, está se tornando difícil escrever. Porque sinto como ficarei de coração escuro ao constatar que, mesmo me agregando tão pouco à alegria, eu era de tal modo sedenta que um quase nada já me tornava uma menina feliz.
LISPECTOR, Clarice. Restos do carnaval. In: Felicidade Clandestina. Rio de Janeiro: Rocco, 1971. p. 17.
Os narradores dos dois textos expõem memórias da infância, uma das temáticas recorrentes da obra de Clarice.
Com base nessa característica narrativa, é possível afirmar que os fragmentos lidos