Leia os textos a seguir, e responda à questão.
Trecho do romance Aves de arribação, de Antonio Sales, publicado em 1914.
Quando o Dr. Alípio saiu da Faculdade sobraçando a sua carta e com o indicador cingido pelo emblemático anel de brilhantes e rubi, sentia perfeitamente que não levava dali um cabedal de conhecimentos capazes de o imporem à estima dos homens cultos. Em compensação, levava um vistoso sortimento de retalhos de ideias, de noções apanhadas aqui e ali, o que lhe permitia fácil jornada na sociedade, onde, aliás, não se tem a obrigação de estar dando provas do seu saber, como na Faculdade; e, se nesta conseguira “botar poeira” nos olhos dos lentes, lá fora então... Quando alguns colegas criteriosos lhe aconselhavam que estudasse, ele redarguia com uma imprudência risonha: - Pra quê? meninos. Isto é o país da pomada! Com esta linguinha e este jeitinho que vocês sabem, preciso lá estudar!
[...]
Sua índole exuberante comprazia-se nesse viver forte dos instintos, sem obrigações, sem disciplina, sem preconceitos; mas simultaneamente gerara-se-lhe no espírito uma dura razão egoísta que lhe formara um subsolo moral, e a ambição germinara aí, medrara, crescera tornando cada vez mais a dominar toda a sua individualidade, ambição de fortuna, de gozos distintos, de predominância entre os homens. O sentimento enrijava-se, anquilosava-se, degenerando em indiferença para com os outros, em preocupação do bemestar próprio, expurgando-o de todas “as pieguices da nociva educação cristã”. (...) Gozar e subir, eis o meu fim; quanto aos meios, serão os que as circunstâncias ditarem.
(SALES, Antônio. Aves de arribação. Fortaleza: UFC, 2008. p. 28-29.)
Poema Ensinamento, de Adélia Prado
Ensinamento
Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
“Coitado, até essa hora no serviço pesado”.
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.
(PRADO, Adélia. Poesia reunida. São Paulo: Siciliano, 1991. p. 116.)
Trecho do conto Ana Davenga, de Conceição Evaristo.
Onde estava Davenga? Teria se metido em alguma confusão? Sim, seu homem só tinha tamanho. No mais era criança em tudo. Fazia coisas que ela nem gostava de pensar. Às vezes ficava dias e dias, meses até, foragido, e quando ela menos esperava dava com ele dentro de casa. Pois é, Davenga parecia ter mesmo o poder de se tornar invisível. Um pouco que ela saía para buscar roupas no varal ou falar um tantinho com as amigas, quando voltava dava com ele, deitado na cama. Nuzinho. Bonito o Davenga vestido com a pele que Deus lhe deu. Uma pele negra, esticada, lisinha, brilhosa. Ela mal fechava a porta e se abria todinha para o seu homem. Davenga, Davenga! E aí acontecia o que ela não entendia. Davenga, que era tão grande, tão forte, mas tão menino, tinha o prazer banhado em lágrimas. Chorava feito criança, soluçava, umedecia ela toda. Seu rosto, seu corpo ficavam úmidos das lágrimas de Davenga. E todas as vezes que ela via aquele homem no gozo-pranto, sentia uma dor intensa. Era como se Davenga estivesse sofrendo mesmo, e fosse ela a culpada. Depois então, os dois, ainda de corpos nus, ficavam ali. Ela enxugando as lágrimas dele. Era tudo tão doce, tão gozo, tão dor!
(EVARISTO, Conceição. Olhos d’água. Rio de Janeiro: Pallas: Fundação Biblioteca Nacional, 2016. p. 23.)
Sobre o amor no poema e/ou no trecho do conto, considere as afirmativas a seguir.
I. O amor é fino e, ao mesmo tempo, simplicidade conectada às práticas do cotidiano, no poema.
II. O amor está ausente dos discursos da mãe e do sujeito lírico, no poema.
III. O amor é meramente físico e sexualizado, fonte de prazer efêmero, no trecho do conto.
IV. O amor é erotizado, mas incorpora, com o pranto, uma dimensão mais abstrata, no trecho do conto.
Assinale a alternativa correta.