Leia um trecho do livro Big Tech, do cientista social Evgeny Morozov.
Há quase uma década nos tornamos reféns de dois tipos de disrupção. Uma delas é cortesia de Wall Street; a outra, do Vale do Silício. Elas dariam uma ótima cena, daquelas em que aparecem um policial bom e o outro mau: um prega a escassez e a austeridade, o outro celebra a abundância e a inovação. Embora pareçam diferentes, um não existe sem o outro.
De um lado, a crise financeira global — e a corrida subsequente para socorrer os bancos — reduziu ainda mais o que restava do Estado de bem-estar social. Isso mutilou — e até extinguiu — o setor público, o único amortecedor remanescente contra o avanço da ideologia neoliberal. Depois dos cortes, os poucos serviços remanescentes ficaram com custos proibitivos.
Em contraste, o segundo tipo de disrupção foi saudado como um desenvolvimento predominantemente positivo. Tudo está sendo digitalizado e conectado — um fenômeno absolutamente natural, caso se possa acreditar nos investidores de risco — e, diante disso, as instituições podem inovar ou morrer. Depois de interligar o mundo, o Vale do Silício nos assegurou que a magia da tecnologia naturalmente permearia todos os cantos da nossa existência.
(Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política, 2018. Adaptado.)
Depreende-se do texto que seu autor manifesta uma visão