Morreu Peri, incomparável idealização dum homem natural como o
sonhava Rousseau, protótipo de tantas perfeições humanas que no
romance, ombro a ombro com altos tipos civilizados, a todos sobreleva
em beleza d’alma e corpo.
[5] Contrapôs-lhe a cruel etnologia dos sertanistas modernos um
selvagem real, feio e brutesco, anguloso e desinteressante, tão
incapaz, muscularmente, de arrancar uma palmeira, como incapaz,
moralmente, de amar Ceci.
[...]
[10] Não morreu, todavia.
Evoluiu.
O indianismo está de novo a deitar copa, de nome mudado. Crismouse
de “caboclismo”. O cocar de penas de arara passou a chapéu de
palha rebatido à testa; a ocara virou rancho de sapé; o tacape afilou,
[15] criou gatilho, deitou ouvido e é hoje espingarda trochada; o boré
descaiu lamentavelmente para pio de inambu; a tanga ascendeu a
camisa aberta ao peito.
Mas o substrato psíquico não mudou: orgulho indomável,
independência, fidalguia, coragem, virilidade heroica, todo o recheio,
[20] em suma, sem faltar uma azeitona, dos Peris e Ubirajaras.
Este setembrino rebrotar duma arte morta inda se não desbagoou
de todos os frutos. Terá o seu “I Juca Pirama”, o seu “Canto do Piaga”
e talvez dê ópera lírica.
[...]
[25] Porque a verdade nua manda dizer que entre as raças de variado
matiz, formadoras da nacionalidade e metidas entre o estrangeiro
recente e o aborígene de tabuinha do beiço, uma existe a vegetar
de cócoras, incapaz de evolução, impenetrável ao progresso. Feia e
sorna, nada a põe de pé.
Monteiro Lobato, “Urupês”.
Vocabulário:
boré (linha 15): trombeta de bambu usada pelos índios.
inambu (linha 16): ave desprovida completamente ou quase completamente de
cauda.
ocara (linha 14): choupana de índios do Brasil.
sorna (linha 29): indolente, inerte.
trochada (linha 15): cano de espingarda que foi torcido para tornar-se reforçado.
Assinale a alternativa INCORRETA a respeito da produção literária de Monteiro Lobato: