MULHER: - Que é que vocês estão combinando aí?
JOÃO GRILO: - Estou dizendo que, se é desse jeito, vai ser difícil cumprir o testamento do cachorro, na parte do dinheiro que ele deixou para o padre e para o sacristão.
SACRISTÃO - Que é isso? Que é isso? Cachorro com testamento?
JOÃO GRILO: - Esse era um cachorro inteligente. Antes de morrer, olhava para a torre da igreja toda vez que o sino batia. Nesses últimos tempos, já doente para morrer, botava uns olhos bem compridos para os lados daqui, latindo na maior tristeza. Até que meu patrão entendeu, com a minha patroa, e é claro que ele queria ser abençoado pelo padre e morrer como cristão. Mas nem assim ele sossegou. Foi preciso que o patrão prometesse que vinha encomendar a bênção e que, no caso dele morrer, teria um enterro em latim. Que em troca do enterro acrescentaria no testamento dele dez contos de réis para o padre e três para o sacristão.
SACRISTÃO: - (enxugando uma lágrima) Que animal inteligente! Que sentimento nobre!
(SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida. 31.ed. Rio de Janeiro: Agir, 1997)
A leitura das peças teatrais de Ariano Suassuna nos faz mergulhar nas nossas origens culturais. Suassuna é um contador de histórias que pratica a intertextualidade na construção de suas narrativas e prepara o leitor para uma moral conforme a filosofia medieval cristã. Especificamente sobre a peça “Auto da Compadecida” NÃO é correto afirmar que: