Na palma da mão as notas estavam úmidas de suor. Desejava saber o tamanho da extorsão. Da última vez que
fizera contas com o amo o prejuízo parecia menor. Alarmou-se. Ouvira falar em juros e em prazos. Isto lhe dera uma
impressão bastante penosa: sempre que os homens sabidos lhe diziam palavras difíceis, ele saía logrado.
Sobressaltava-se, escutando-as. Evidentemente só serviam para encobrir ladroeiras. Mas eram bonitas. Às vezes
decorava algumas e as empregava sem propósito. Depois, esquecia-as. Para que um pobre da laia dele usar conversa
de gente rica? Sinha Terta é que tinha uma ponta de língua terrível. Era: falava quase tão bem como as pessoas da
cidade. Se ele soubesse falar tão bem quanto sinha Terta, procuraria serviço em outra fazenda, haveria de arranjarse.
Nas horas de aperto dava para gaguejar, embaraçava-se como um menino, coçava os cotovelos, aperreado. Por
isso esfolava-o. Safados. Tomar as coisas de quem não tinha onde cair morto! Não viam que isso não estava certo?
Que iam ganhar com semelhante procedimento? Hem? Que iam ganhar?
RAMOS, Graciliano. Contas. Vidas secas. 65ª ed. Rio; São Paulo: Record, 1994. p. 96-97. Capítulo X.
Levando em consideração a narrativa de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, é correto afirmar que, na tessitura do excerto em análise, observam-se as seguintes marcas discursivas:
I. Presença, na narrativa, do discurso indireto livre.
II. Utilização do raciocínio dedutivo pela personagem.
III. Enfoque de um problema que se esgota no momento.
IV. Relação patrão-empregado pautada no desrespeito mútuo.
V. Angústia diante da compreensão do real motivo da espoliação do outro.
A alternativa em que todas as afirmativas indicadas estão corretas é a