Nessas quadras a relva requeimada, através da qual, como única vegetação resistente, coleiam cactos flageliformes repitantes e ásperos, dá aos campos, revestidos de uma cor parda intensa, anota lúgubre da máxima desolação; o solo fende-se profundamente, como se suportasse a vibração interior de um terremoto; as árvores desnudam-se, despidas das folhagens, com exceção do juazeiro de folhas elípticas e coriáceas, - e os galhos que morreram ficam por tal modo secos que, em algumas espécies, basta o atrito de um sobre outro para produzir-se o fogo e o incêndio subsequente de grandes áreas. E sobre as chapadas desertas e desoladas alevantam-se quase que exclusivamente os mandacarus (cereus) silentes e majestosos; árvores providenciais em cujos galhos e raízes armazenam-se os últimos recursos para a satisfação da sede e da fome ao viajante retardatário - cactáceas gigantes que, revestidas de grandes frutos de um vermelho rutilante e subdividindo-se com admirável simetria em galhos ascendentes, igualmente afastados, patenteiam a conformação típica e bizarra de grandes candelabros firmados sobre o solo... Então, diz Saint-Hilaire, um calor irritante acabrunha o viajante, uma poeira incomoda alevanta-se sob seus passos e algumas vezes mesmo não se encontra água para mitigar a sede. Há toda a tristeza de nossos invernos com um céu brilhante e os calores do verão. Sem transição apreciável, entretanto, a estas secas intensas e nefastas, sucedem, bruscamente às vezes, as quadras chuvosas e benéficas: impetuosas correntes rolam sobre o leito de rios que dias antes ainda completamente secos davam ideia de largas estradas tortuosas, lastradas de quartzo fragmentado e grés duríssimo, conduzindo a lugares remotos do sertão.
De acordo com os seus conhecimentos e analisando o trecho acima, publicado no jornal O Estado de São Paulo, em 1897, "A nossa vendeia I", de EUCLIDES DA CUNHA, autor do livro OS SERTÕES, pode-se afirmar que: