“O elemento do texto que conta os fatos é denominado narrador, cuja função é narrar. A narração em 1ª pessoa e a narração em 3ª pessoa, cuja escolha por uma ou outra está ligada a estratégias discursivas diferentes, acarretará efeitos de sentidos diferentes: na narração em 1ª pessoa, passa-se o efeito de sentido de subjetividade; e na narração em 3ª pessoa, o de objetividade” (Revista Metalinguagens, v.5, n.1, p. 13-25, Ernani Terra). Apresentam-se, a seguir, dois trechos de contos de Machado de Assis e um trecho de J. J. Veiga.
Trecho 1. A cartomante
Hamlet observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras (Machado de Assis, 1962, p. 477).
Trecho 2. Missa do galo
Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite. A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses, que fora casado, em primeiras núpcias, com uma de minhas primas. A segunda mulher, Conceição, e a mãe desta acolheram-me bem quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios (Machado de Assis, 1962, p. 605-606).
Trecho 3. A máquina extraviada
Você sempre pergunta pelas novidades daqui deste sertão, e finalmente posso lhe contar uma importante. Fique o compadre sabendo que agora temos aqui uma máquina imponente, que está entusiasmando todo o mundo. Desde que ela chegou – não me lembro quando, não sou muito bom em lembrar datas – quase não temos falado em outra coisa; e da maneira que o povo aqui se apaixona até pelos assuntos mais infantis, é de admirar que ninguém tenha brigado ainda por causa dela, a não ser os políticos (José J. Veiga, 2001, p. 229).
I - No fragmento 1, não há nenhuma marca linguística do narrador. É como se o conto narrasse a si próprio. Há um afastamento da instância da enunciação, o que confere um sentido de objetividade.
II – No fragmento 2, há narração em 1ª pessoa. As marcas linguísticas da enunciação estão espalhadas pelo texto e são representadas por verbos (pude entender, preferi etc.) e pelo pronome de 1ª pessoa (eu).
III – No fragmento 3, há narração em 1ª pessoa, como se pode observar pelos pronomes e formas verbais (não me lembro, não sou etc.), mas o narrador constitui um “você”, a quem se dirige e depois é identificado pelo substantivo povo.
IV - Nos fragmentos 1 e 3, o narrador dirige-se a um narratário que não está explicitado no texto, ao contrário do trecho 2, em que há explicitação do narratário.
V – O trecho 1 é narrado em 3ª pessoa e não há nenhuma marca linguística do narrador, para que se observem os efeitos de sentido de objetividade e de subjetividade.
O narrador em Machado de Assis e J.J. Veiga foi descrito de forma adequada sobre os trechos 1, 2 e 3 apenas em