"[...] O Leonardo abandonara de uma vez para sempre a casa fatal onde tinha sofrido tamanha infelicidade; nem mesmo passara mais por aquelas alturas; de maneira que o compadre por muito tempo não lhe pôde pôr a vista em cima. O pequeno, enquanto se achou novato em casa do padrinho, portou-se com toda a sisudez e gravidade; apenas porém foi tomando mais familiaridade, começou a pôr as manguinhas de fora. Apesar disto porém captou do padrinho maior afeição, que se foi aumentando de dia em dia, e que em breve chegou ao extremo da amizade cega e apaixonada. Até nas próprias travessuras do menino, as mais das vezes malignas, achava o bom do homem muita graça; não havia para ele em todo o bairro rapazinho mais bonito, e não se fartava de contar à vizinhança tudo o que ele dizia e fazia; às vezes eram verdadeiras ações de menino malcriado, que ele achava cheio de espírito e de viveza; outras vezes eram ditos que denotavam já muita velhacaria para aquela idade, e que ele julgava os mais ingênuos do mundo. Era isto natural em um homem de uma vida como a sua; tinha já 50 e tantos anos, nunca tinha tido afeições; passara sempre só, isolado; era verdadeiro partidário do mais decidido celibato. Assim à primeira afeição que fora levado a contrair sua alma expandiu-se toda inteira, e seu amor pelo pequeno subiu ao grau de rematada cegueira. Este, aproveitando-se da imunidade em que se achava por tal motivo, fazia tudo quanto lhe vinha à cabeça.
[...].
ALMEIDA, Manuel Ant�nio de. Mem�rias de um sargento de mil�cias. Bras�lia: Minist�rio da Educa��o/ Funda��o Biblioteca Nacional/ Departamento Nacional do Livro, s/d. Dispon�vel em: http://noticias.universia.com.br/net/files/2017/2/10/memorias-deumsargento-de-milicias-manuel-antonio-de-almeida.pdf. Acesso em: abr. 2019.
Memórias de um sargento de milícias é um romance de transição, uma vez que se localiza, temporalmente, entre o fim do romantismo e o início do realismo, tornando-se precursor deste último. A narrativa apresenta como protagonista um anti-herói, que, de acordo com os estudos literários, é uma categoria de personagens que não está dotada das virtudes tradicionalmente atribuídas ao herói, uma vez que seus atos tornam-se moralmente questionáveis. Porém, eles recebem a aprovação dos leitores, pela simpatia e carisma que acabam justificando os atos de malandragem.
Considerando-se o fragmento que constitui o texto base, assinale a alternativa cujas expressões caracterizam o protagonista na sua condição de antiherói.