O pior do jeitinho
[1] O conjunto de inépcias que emerge da investigação sobre a tragédia de Santa 1 Maria evidencia
[2] um dos grandes males do país, que é a burla rotineira de normas legais e recomendações técnicas
[3] por pessoas interessadas em auferir vantagens. Ocorre em todos os setores da sociedade, da
[4] administração pública à portaria do edifício. É o lado sombra do famoso jeitinho brasileiro, já
[5] incorporado à identidade cultural do nosso povo. Às vezes, nos orgulhamos desse artifício que
[6] expressa a nossa criatividade, a nossa tolerância, a nossa cordialidade ou a nossa capacidade de
[7] improvisar. Mas, em muitas situações, ele nos envergonha, pois é usado como cobertura para a
[8] malandragem, para a corrupção e para a ruptura de normas sociais, que invariavelmente causam
[9] prejuízos para terceiros.
[10] Tais comportamentos, facilmente comprovados no cotidiano dos brasileiros, só ganham
[11] dimensão e causam revolta quando geram consequências graves, como em desastres que poderiam
[12] ser evitados se os agentes envolvidos tivessem cumprido suas obrigações. Porém, quando não ocorre
[13] uma tragédia nem morre ninguém, nossa reação costuma ser, invariavelmente, de tolerância e
[14] conformismo. Suportamos, quase sempre sem reclamar, o despreparo do funcionário da loja ou do
[15] restaurante, o desleixo do servidor público que deveria nos considerar seu patrão, a má qualidade dos
[16] produtos adquiridos muitas vezes por preços exorbitantes, as deficiências dos serviços que nos
[17] prestam e a carência de equipamentos públicos indispensáveis para nosso conforto e para nossa
[18] segurança.
[19] O país convive historicamente com a cultura da irresponsabilidade - e, infelizmente, a maioria
[20] de nós tem sido conivente com ela. Até costumamos denunciar e cobrar irregularidades de
[21] governantes, políticos e agentes públicos, mas nem sempre percebemos que a incúria e a inação
[22] espraiam-se pelos estratos mais básicos da sociedade. O lixo fora da lixeira é um indicativo não
[23] apenas de que alguém descumpriu uma regra de cidadania, mas também de que a tolerância vai
[24] estimular o delito e a impunidade. O carro estacionado em local não permitido indica não apenas que
[25] um condutor infringiu a lei, mas também que o agente público descumpriu a sua atribuição de
[26] fiscalizar. A expressão "não dá nada", que se ouve com extrema frequência no cotidiano brasileiro,
[27] transformou-se num verdadeiro atestado nacional de permissividade.
[28] Tem solução? Especialistas no comportamento do brasileiro, como o cientista político Alberto
[29] Carlos Almeida, dizem que o país ainda levará muito tempo para superar a cultura da improvisação e
[30] para vencer aquilo que o filósofo Eduardo Gianetti da Fonseca chama de "zonas cinzentas da
[31] moralidade". Mas, leve o tempo que levar, o certo é que esta mudança precisa ocorrer primeiro no
[32] indivíduo, para que também ocorra no Estado, nos governantes e no conjunto da sociedade.
Editorial interativo Zero Hora, 3 fev. 2013, p. 28.
Quanto à sintaxe de concordância e de regência, que afirmativa está INCORRETA?