O que é vida? [...] Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a “reverência pela vida” é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?
Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.
Muitos dos chamados “recursos heroicos” para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da “reverência pela vida”. Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: “Liberta-me”.
Dizem as escrituras sagradas: “Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer”.
A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A “reverência pela vida” exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a “morienterapia”, o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a “Pietà” de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe, o morrer deixa de causar medo.
ALVES, Rubem. O que é a vida? Disponível em: https://www.portalraizes.com/ rubem-alves-o-que-e-a-vida/. Acesso em: abr. 2022. Fragmento.
Considerando-se o contexto, a explicação dada para o termo em análise, está correta em
I) “me”, em “Dir-me-ão que é dever dos médicos”, está mesoclítico, visto que a forma verbal inicia a frase e se apresenta no futuro do presente, já em “na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida”, aparece proclítico ao verbo, por haver uma palavra atrativa antes, ou seja, o advérbio “nunca”.
II) “se”, em “o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia”, poderia aparecer enclítico, ficando preservada, do mesmo modo, a norma gramatical.
III) “se”, em “se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: ‘Liberta-me.’ ”, nesse caso, tem valor conjuntivo e expressa causa.
IV) “Dizem”, em “Dizem as escrituras sagradas”, indica a indeterminação do sujeito da oração a que pertence.
V) “pela” e “de”, em “ ‘reverência pela vida’ ” e em “ cercada de amigos, longe de UTIs.”, compõem expressões que exercem diferentes funções sintáticas.
A alternativa em que todas as afirmativas indicadas estão corretas é a