O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranquila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles… Um homem cego mascava chicles.
Ana ainda teve tempo de pensar por um segundo que os irmãos viriam jantar — o coração batia-lhe violento, espaçado. Inclinada, olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mascava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir – como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse teria a impressão de uma mulher com ódio. Mas continuava a olhá-lo, cada vez mais inclinada [...] O cego interrompera a mastigação e avançava as mãos inseguras, tentando inutilmente pegar o que acontecia. [...] Poucos instantes depois já não a olhavam mais. O bonde se sacudia nos trilhos, e o cego mascando goma ficara atrás para sempre. Mas o mal estava feito.
Clarice Lispector, “Amor”.
A personagem Ana, ao deparar com a visão de um cego em meio a um dia de rotina,