O trecho que segue foi extraído do conto “Restos do carnaval”, de Clarice Lispector.
Quando horas depois a atmosfera em casa acalmouse, minha irmã me penteou e pintou-me. Mas alguma coisa tinha morrido em mim. E, como nas histórias que eu havia lido sobre fadas que encantavam e desencantavam pessoas, eu fora desencantada; não era mais uma rosa, era de novo uma simples menina. Desci até a rua e ali de pé eu não era uma flor, era um palhaço pensativo de lábios encarnados. Na minha fome de sentir êxtase, às vezes começava a ficar alegre mas com remorso lembrava-me do estado grave de minha mãe e de novo eu morria.
Só horas depois é que veio a salvação. E se depressa agarrei-me a ela é porque tanto precisava me salvar. Um menino de uns 12 anos, o que para mim significava um rapaz, esse menino muito bonito parou diante de mim e, numa mistura de carinho, grossura, brincadeira e sensualidade, cobriu meus cabelos já lisos, de confete: por um instante ficamos nos defrontando, sorrindo, sem falar. E eu então, mulherzinha de 8 anos, considerei pelo resto da noite que enfim alguém me havia reconhecido: eu era, sim, uma rosa.
(Fonte: LISPECTOR, Clarice. Felicidade clandestina. Rio de Janeiro: Rocco).
A respeito do livro Felicidade Clandestina, de Clarice Lispector, considere as seguintes proposições e, depois, assinale a alternativa correta.
(I) Os contos “Felicidade clandestina”, “Restos do carnaval”, “Cem anos de perdão” e “Os desastres de Sofia” narram momentos da infância de uma garota, personagem que se repete nos quatro textos. Assim, é possível observar uma linha cronológica entre eles, revelando o amadurecimento da protagonista.
(II) No conto “Cem anos de perdão”, retoma-se o tema da “rosa”, já manifesto em “Restos do carnaval”. A diferença entre os dois está em que, em “Restos do carnaval”, a protagonista recebe de presente a fantasia de “rosa”, ou seja, depende da bondade da mãe da amiga; já, em “Cem anos de perdão”, a personagem age por conta própria, traçando o plano e adentrando sozinha o jardim alheio para roubar a “rosa”, objeto de seu desejo.
(III) Para Ermelinda Maria Araújo Ferreira, o amor, na obra de Clarice Lispector, é quase sempre visto como um instrumento de elevação espiritual”. No conto “Os desastres de Sofia”, isso fica evidente na relação que se desenvolve entre a protagonista, menina de nove anos, e seu professor. A garota não sente um amor erótico pelo homem mais velho; trata-se aqui de um sentimento mais profundo, de transformação do ser.