Ora, daquela vez, como das outras, Fabiano
ajustou o gado, arrependeu-se, enfim deixou a transação
meio apalavrada e foi consultar a mulher. Sinha Vitória
mandou os meninos para o barreiro, sentou-se na
cozinha, concentrou-se, distribuiu no chão sementes de
várias espécies, realizou somas e diminuições. No dia
seguinte, Fabiano voltou à cidade, mas ao fechar o
negócio notou que as operações de sinha Vitória, como
de costume, diferiam das do patrão. Reclamou e obteve
a explicação habitual: a diferença era proveniente de
juros.
Não se conformou: devia haver engano. Ele era
bruto, sim senhor, via-se perfeitamente que era bruto,
mas a mulher tinha miolo. Com certeza havia um erro no
papel do branco. Não se descobriu o erro, e Fabiano
perdeu os estribos. Passar a vida inteira assim no toco,
entregando o que era dele de mão beijada! Estava direito
aquilo? Trabalhar como negro e nunca arranjar carta de
alforria!
O patrão zangou-se, repeliu a insolência, achou
bom que o vaqueiro fosse procurar serviço noutra fazenda.
Aí Fabiano baixou a pancada e amunhecou. Bem,
bem. Não era preciso barulho não. Se havia dito palavra
à toa, pedia desculpa. Era bruto, não fora ensinado.
Atrevimento não tinha, conhecia o seu lugar. Um cabra.
RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 71. ed. Rio de Janeiro: Record, 1996. p. 92-93.
Com base no contexto da obra “Vidas Secas”, há correspondência entre o fragmento transcrito e a compreensão em itálico ao lado na alternativa