Ora sabereis que a sua riqueza de expressão intelectual é tão prodigiosa, que falam numa língua e escrevem noutra. [...] Nas conversas utilizam-se os paulistanos dum linguajar bárbaro e multifário1 , crasso de feição e impuro na vernaculidade, mas que não deixa de ter o seu sabor e força nas apóstrofes, e também nas vozes de brincar. [...] Mas se de tal desprezível língua se utilizam na conversação os naturais desta terra, logo que tomam da pena, se despojam de tanta asperidade, e surge o Homem Latino, de Lineu, exprimindo- -se numa outra linguagem, mui próxima da virgiliana.
(Mário de Andrade. Macunaíma: o herói sem nenhum caráter, 1989.)
1multifário: de muitas maneiras
Macunaíma foi publicado em 1928. No excerto, o herói Macunaíma escreve uma carta aos seus súditos, que vivem na Amazônia, relatando a sua experiência na capital de São Paulo.
O livro e a carta, em particular, contêm muitos aspectos, projetos e conteúdos do modernismo artístico brasileiro, entre os quais, a