Os três textos a seguir são de autoria de Rui Barbosa. Esses textos fazem parte da conferência “Às classes conservadoras”, que foi pronunciada no salão da Associação Comercial do Rio de Janeiro, em 8 de março de 1919. Leia-os, com atenção, para responder ao que se pede.
O reino da mentira
Mentira tôda ela. Mentira de tudo, em tudo e por tudo. Mentira na terra, no ar, até no céu, onde, segundo o Padre Vieira, que não chegou a conhecer o Dr. Urbano dos Santos, o próprio sol mentia ao Maranhão, e diríeis que, hoje, mente ao Brasil inteiro. Mentira nos protestos. Mentira nas promessas. Mentira nos programas. Mentira nos projetos. Mentira nos progressos. Mentira nas reformas. Mentira nas soluções. Mentira nas transmutações. Mentira nas soluções. Mentira nos homens, nos atos e nas cousas. Mentira no rosto, na voz, na postura, no gesto, na palavra, na escrita. Mentira nos partidos, nas coligações e nos blocos. Mentira nos caudilhos aos seus apaniguados, mentira dos seus apaniguados aos caudilhos, mentira de caudilhos e apaniguados à nação. Mentira nas instituições. Mentira nas eleições. Mentira nas apurações. Mentira nas mensagens. Mentira nos relatórios. Mentira nos inquéritos. Mentira nos concursos. Mentira nas embaixadas. Mentira nas candidaturas. Mentira nas garantias. Mentira nas responsabilidades. Mentira nos desmentidos. A mentira geral. O monopólio da mentira. Uma impregnação tal das consciências pela mentira, que se acaba por se não discernir a mentira da verdade, que os contaminados acabam por mentir a si mesmos, e os indenes, ao cabo, muitas vêzes não sabem se estão mentindo. Um ambiente, em suma, de mentiraria, que, depois de ter iludido ou desesperado os contemporâneos, corre o risco de lograr ou desesperar os vindouros, a posteridade, a história, no exame de uma época, em que, à força de se intrujarem uns aos outros, os políticos, afinal, se encontram burlados pelas suas próprias burlas, e colhidos nas malhas da sua própria intrujice, como é precisamente agora o caso.
Já se entoou no parlamento republicano o panegírico do jôgo. Já se lavrou na imprensa da atualidade a apologia da perfídia. Ainda não se ensaiou, numa tribuna ou na outra, a glorificação da mentira. Mas há de vir. Há de estar próxima. Já tarda. Não se concebe que se haja demorado tanto. É a justiça da nossa época a si mesma. Pelo hábito de preterir a tudo, acaba ela sem fim, destarte, preterindo a si própria.
(Disponível em: http://www.casaruibarbosa.gov.br/rbonline/obrasCompletas. htm. Acesso em: 20 set. 2017).
Julgue estas considerações acerca do texto ''O reino da mentira''.
I. A reiteração do item lexical ''mentira'' contribui para uma argumentação em favor da onipresença da mentira.
II. O fragmento ''Um ambiente, em suma, de mentiraria'' funciona como retificação das informações anteriores e como mudança do direcionamento argumentativo.
III. No final do primeiro parágrafo, o autor sinaliza a possibilidade de a mentira política atravessar o tempo e contaminar épocas futuras.
IV. Os pressupostos da frase ''Ainda não se ensaiou, [...], a glorificação da mentira.'' indicam a anuência do autor em relação à mentira glorificada.
É CORRETO apenas o que se afirma em