OSSOS DOS OFÍCIOS
Não tenho medo de morrer. Como delegado, enfrentei a Madame várias vezes, cara a cara. Mas não quero agonia, UTI, tubos.
Chamei o médico do andar de cima. É um merda. Paciência. Foi o único que encontrei em casa perto do fim de semana. Médico, qualquer dia desses, vai fazer greve exigindo as mesmas regalias dos nossos nobres deputados, em Brasília: chegar no trabalho terça de tarde e se mandar quinta de manhã. Campainha. Deve ser o tarado:
– Bom dia, doutor.
– Bom dia, doutor. Desculpe incomodá-lo mas estou sentindo um troço estranho, uma pressão incomum nos ouvidos, dificuldade de audição, as ideias como que entupidas. Não precisa dizer que eu tenho bosta na cabeça. Reconheço. São ossos do ofício. Mas hoje a coisa tá feia. Acho que vou ter um derrame. Foi logo depois de escovar os dentes. Sentei no vaso e… Peralá: já estou tendo também alucinações ou o senhor está rindo de mim?
– Meu caro, sua sintomalogia é bastante coerente com, digamos, seu estado: acontece que o ilustre policial se encontra, neste momento, com um cotonete enfiado em cada orelha.
(BLANC, Aldir. Um cara bacana na 19a . Rio de Janeiro: Record, 1996, p. 225.)
Assinale a alternativa que evidencia CORRETAMENTE uma característica do médico, personagem desse conto de Aldir Blanc.