Parte I - UMA HISTÓRIA DAS REPRESENTAÇÕES DE SAÚDE E DOENÇA
Gil Sevalho
A história das representações de saúde e doença foi sempre pautada pela inter-relação entre os corpos dos seres humanos e as coisas e os demais seres que os cercam. Elementos naturais e sobrenaturais habitam estas representações desde tempos imemoriais, provocando os sentidos e impregnando a cultura e os espíritos, os valores e as crenças dos povos. Sentimentos de culpa, medos, superstições, mistérios, envolvendo o fogo, o ar, a terra, os astros, a organização da natureza, estão indissoluvelmente ligados às expressões da doença, à ocorrência de epidemias, à dor, ao sofrimento, às impressões de desgaste físico e mental, à visão da deterioração dos corpos e à perspectiva da morte. Le Goff (1991b) aponta que
"A doença pertence não só à história superficial dos progressos científicos e tecnológicos como também à história profunda dos saberes e das práticas ligadas às estruturas sociais, às instituições, às representações, às mentalidades".
As representações primevas de saúde e doença foram mágicas. Entre os povos sem escrita, a doença era vista como o resultado de influências de entidades sobrenaturais, externas, contra as quais a vítima comum, o ser humano não iniciado, pouco ou nada podia fazer.
Também no contexto das representações mágicas, os antigos povos da Mesopotâmia — sumérios, assírios, babilônios — "haviam postulado uma sociedade sobrenatural de `deuses\\' concebidos à sua imagem colocada no superlativo" (Bottéro, 1991). Estes povos forjaram "uma série de personalidades inferiores (...) aos criadores e soberanos do universo, mas superiores às suas vítimas", os demônios que se apossavam dos corpos, provocavam as doenças e deviam ser exorcizados.
Em uma concepção seguinte, a doença participava das crenças religiosas, era obra dos deuses. Inicialmente era fruto do humor divino, independente do comportamento humano. Faz parte, esta visão, das "interpretações religiosas da doença como consequência da fatalidade (...) a doença-maldição" (Laplantine, 1991). Outra representação também religiosa, mais elaborada porquanto relacional, é a de "uma consequência necessária provocada pelo indivíduo ou pelo grupo (...) é a doença-punição" (Laplantine, 1991).
Certos aspectos de caráter religioso, maldições ou castigos divinos, ainda hoje revestem as representações de saúde e doença. O medo e a culpabilidade sempre participaram da relação do ser humano com a doença, conformando permanências culturais. Estes aspectos resistem entre crenças ainda existentes que cultuam a pureza como uma ligação rigorosa e permanente ao primitivo e um isolamento dos costumes atuais, ou mesclados na cultura geral de nosso tempo. A sífilis, com seu caráter venéreo, na primeira metade do século XX, e a presente epidemia de AIDS, inicialmente entre homossexuais masculinos e usuários de drogas endovenosas, trouxeram à tona uma série de preconceitos morais.
Hoje, em todo o mundo, os xamãs continuam exercendo sua função, realizando curas através de rituais, expulsando coisas e espíritos que invadem os corpos das vítimas e os sacerdotes ainda exorcizam os demônios. Muito a propósito, portanto, vêm as observações de Gonçalves (1990), quando chama a atenção para o fato de que as expressões manifestações clínicas e entidades mórbidas, de inspiração notadamente sobrenatural, integram o jargão médico moderno, referindo-se aos sintomas e doenças.
(SEVALHO, Gil. Uma abordagem histórica das representações sociais de saúde e doença. Disponível em: http://www.scielo.br. Acesso: 22 fev. 2012. Fragmento.)
O autor defende a tese de que as representações de saúde e doença estão intrinsecamente relacionadas a crenças sobre a decadência dos costumes que disseminam interpretações equivocadas para explicar determinados casos clínicos. Essa visão ocasiona um efeito prejudicial sobre o modo como a sociedade se posiciona sobre a ocorrência, considerando a doença como um problema moral.
Como exemplo, na atualidade próxima, o enunciador destaca no texto o seguinte fato: