Porque a realidade é inverossímil
Escusando-me por repetir truísmotão martelado, mas movido pelo conhecimento de que os
truísmos são parte inseparável da boa retórica narrativa, até porque a maior parte das pessoas
não sabe ler e é no fundo muito ignorante, rol no qual incluo arbitrariamente você, repito o que
tantos já dizem e vivem repetindo, como quem usa chupetas: a realidade é, sim, muitíssimo
[5] mais inacreditável do que qualquer ficção, pois esta requer uma certa arrumação falaciosa, a
que a maioria dá o nome de verossimilhança. Mas ocorre precisamente o oposto. Lê-se ficção
para fortalecer a noção estúpida de que há sentido, lógica, causa e efeito lineares e outros
adereços que integrariam a vida. Lê-se ficção, ou mesmo livros de historiadores ou jornalistas,
por insegurança, porque o absurdo da vida é insuportável para a vastidão dos desvalidos que
povoa a Terra.
(João Ubaldo Ribeiro - Diário do Farol. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002.)
Para justificar a repetição de algo já conhecido, o autor se baseia na relação que mantém com os leitores.
Com base no texto, é possível perceber que essa relação se caracteriza genericamente pela: