Procura um apoio, mas não encontra. A tontura é demais. Cai no chão, sobre a calçada […]
[…]
“Que tombo, gurizinho. Não chora, não chora, deixa eu ver.”
[…]
“Deixa a vó ver. Não é nada.”
[...]
“Porque tem o sangue bom e o sangue ruim, sabia? O sangue ruim é esse sangue escuro que tá saindo aí, é sangue sujo, ele corre por fora, assim, perto da pele, entendeu?” […] “O sangue bom é diferente, é bem clarinho, quase rosa, e ele passa nas veias bem grossas, no fundo, por dentro da carne da gente, assim.”
[…]
Quanto mais pensa nisso, menos intenso é seu mal-estar diante dos machucados. Em sua imaginação há uma imagem elaborada de todas as veias e artérias percorrendo seu interior como uma rede de encanamento […]. Passa o dedo no sangue da perna e depois une as pontas do indicador e do polegar, sentindo como colam uma na outra.
GALERA, Daniel. Mãos de Cavalo. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 17; 18-19.
Em Mãos de Cavalo, de Daniel Galera, o emprego do fluxo de consciência cria um efeito de fusão da fala da personagem à do narrador. Esse efeito está explícito no seguinte trecho: