Professor desviou os olhos do livro, bateu a mão descarnada no ombro do negro, seu mais ardente admirador:
— Uma história zorreta, seu Grande – seus olhos brilhavam.
— De marinheiro?
— É de um negro assim como tu. Um negro macho de verdade.
— Tu conta?
— Quando findar de ler eu conto. Tu vai ver só que negro...
E volveu os olhos para as páginas do livro. João Grande acendeu um cigarro barato, ofereceu outro em silêncio ao Professor e ficou fumando de cócoras, como que guardando a leitura do outro. Pelo trapiche ia um rumor de risadas, de conversas, de gritos. João Grande distinguia bem a voz do Sem-Pernas, estrídula e fanhosa. O Sem-Pernas falava alto, ria muito. Era o espião do grupo, aquele que sabia se meter na casa de uma família uma semana, passando por um bom menino perdido dos pais na imensidão agressiva da cidade. Coxo, o defeito físico valera-lhe o apelido. Mas valia-lhe também a simpatia de quanta mãe de família o via, humilde e tristonho, na sua porta pedindo um pouco de comida e pousada por uma noite. Agora, meio do trapiche, O Sem-Pernas metia a ridículo o Gato, que perde todo um dia para furtar um anelão cor de vinho, sem nenhum valor real, pedra falsa, de falsa beleza também. Fazia já uma semana que o Gato avisara a meio mundo:
— Vi um anelão, seu mano, que nem de bispo. Um anelão bom pro meu dedo. Batuta mesmo. Tu vai ver quando eu trouxer...
— Em que vitrine?
— No dedo de um pato. Um gordo que todo dia toma o bonde de Brotas na Baixa do Sapateiro. E o Gato não descansou enquanto não conseguiu, no aperto um bonde das seis horas da tarde, tirar o anel do dedo do homem, escapulindo na confusão, porque o dono logo percebeu. Exibia o anel no dedo médio, com vaidade. O Sem-Pernas ria:
— Arriscar cadeia por uma porcaria! Um troço feio...
— Que tem tu com isso? Eu acho bom, tá acabado.
— Tu é burro mesmo. Isso no prego não dá nada.
— Mas dá simpatia no meu dedo. Tou arranjando uma comida...
Analise as afirmativas a seguir e assinale a opção errada a respeito dos personagens, da linguagem e das características do livro Capitães da areia, de Jorge Amado, publicado em 1937.