Quem circulava pelas ruas de Nova Iorque, no começo da década de 70, talvez tenha presenciado uma cena incomum: um respeitável senhor, já beirando os sessenta anos, trajado com muito bom gosto, parar, abaixar-se no meio do burburinho, para catar no chão, com o cuidado de quem pega uma rosa prestes a ruir, uma ponta de cigarro fumado, imunda, uma guimba nojenta. Depois, de posse do ‘troféu’, desaparecia outra vez em meio à multidão.
A cena certamente se repetiu inúmeras vezes, e quem por acaso a presenciou saiba que assistia ao trabalho de um dos maiores fotógrafos de nossos tempos: Irving Penn. As pontas abandonadas, com marcas de dentes e batom, amassadas, pisadas, empoeiradas, semidestruídas, eram levadas com cuidado para o estúdio, para que não se perdesse o eventual fio de cabelo nem os grãos de poeira a elas grudados. Lá, eram fotografados, tendo as imagens muito ampliadas. Imagens exuberantes, ricas, belíssimas! (KUBRUSLY, 1984: 65-7)
(Gramática Houais – J. Carlos de Azeredo – Adaptado)
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