Quem estava em NY viveu apagão de informação
1.º§ No mundo de 11 de setembro de 2001, as pessoas não carregavam notícias em tempo real dentro do bolso nem tinham respostas para qualquer pergunta a um clique no Google. Naquela época, a maioria dos celulares não oferecia conexão à rede. Também não tinha chamada de vídeo nem redes sociais.
2.º§ Se você quisesse descobrir alguma coisa, precisava checar a internet no seu computador. Se estivesse na rua, corria para casa e ligava a TV ou entrava em uma loja de eletrodomésticos para assistir ao noticiário em um dos aparelhos à venda. Ou então ligava para alguém para perguntar – mas quem disse que os celulares funcionavam naquele momento, após o maior atentado terrorista da história dos EUA?
3.º§ Por isso, eu e grande parte das pessoas que estávamos nas ruas de Nova York logo depois de dois aviões colidirem com o World Trade Center vivemos um apagão de informação inimaginável hoje.
4.º§ Meu amigo Luiz, que trabalhava em um banco bem perto das Torres Gêmeas, sentiu o prédio em que estava chacoalhar quando o segundo avião se chocou. Havia aparelhos de TV no banco, mas ele só se deu conta da gravidade do atentado quando atendeu a um telefonema de um cliente, mandando comprar petróleo.
5.º§ Desceu as escadas do prédio, pulou a catraca, que estava travada, e começou a andar depressa pela rua, enquanto ouvia o som de caças. Quando desmoronou o segundo prédio e veio uma nuvem de fumaça, achou que fosse uma bomba. O celular não funcionava e ninguém fazia ideia de que havia outros aviões. Só entendeu que era um ataque terrorista duas horas depois, quando um amigo do Brasil enfim conseguiu ligar.
6.º§ Minha amiga Patrícia correu para comprar mantimentos quando viu o noticiário. Passou em frente a uma loja de eletrodomésticos e ficou siderada assistindo ao atentado nas TVs enfileiradas. Não dava para entender se eram dois aviões ou se era um replay. O cheiro de fumaça aumentava, seu telefone não funcionava e ela não conseguia saber se o namorado, que trabalhava perto do WTC, estava bem.
7.º§ Assisti ao segundo avião bater na segunda torre, ao vivo, pela TV de casa. Fui até o teto do prédio onde morava, e enxerguei a fumaça. Corri em direção ao sul de Manhattan para fazer a cobertura. Enquanto andava na Broadway, não tinha a menor ideia do que estava acontecendo. Tinha mais aviões? É verdade que um deles tem como alvo a estátua da Liberdade? O metrô é seguro? Às 9h37, um avião bateu no Pentágono, em Washington. Eu nem imaginava. Também não sabia que tinha outro avião sequestrado que, às 10h03, caiu em um descampado na Pensilvânia. Ligava para minha mãe, para meu pai, para tentar descobrir alguma coisa, mas os celulares não funcionavam.
8.º§ Alguns comentaristas na televisão começaram a falar em terrorismo e em Al Qaeda, mas a gente estava no meio da rua, perdidos, olhando aquela multidão subindo, cheia de fuligem das torres que tinham desabado. Fosse hoje, já estaríamos todos “googlando” Osama bin Laden e checando os sites dos jornais. Naquele dia, além do medo, havia a dúvida. Não sabíamos se o ataque tinha acabado. Lembrome de um homem gritando, mandando a gente fugir, porque um outro avião ia atingir a Bolsa de Valores.
Adaptado de Patrícia Campos Mello. Folha de São Paulo, 11 de setembro de 2021.
“No mundo de 11 de setembro de 2001, as pessoas não carregavam notícias em tempo real dentro do bolso” (1.º§).
No trecho, ocorre a seguinte figura de linguagem: