Romance LIII ou Das palavras aéreas
Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!
Ai, palavras, ai, palavras,
sois de vento, ides no vento,
no vento que não retorna.
[...]
Sois de vento, ides no vento,
e quedais, com sorte nova!
[...]
Ai, palavras, ai, palavras,
íeis pela estrada afora,
erguendo asas muito incertas,
entre verdade e galhofa,
desejos do tempo inquieto,
promessas que o mundo sopra...
Ai, palavras, ai, palavras, mirai-vos: que sois, agora?
[...]
Perdão podíeis ter sido!
– sois madeira que se corta,
– sois vinte degraus de escada,
– sois um pedaço de corda...
– sois povo pelas janelas, cortejo, bandeiras, tropa...
Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!
Éreis um sopro na aragem...
– sois um homem que se enforca!
Fonte: MEIRELES, Cecília. Romanceiro da Inconfidência. São Paulo: Global, 2012.
Releia os seguintes versos:
Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!
[...]
Sois de vento, ides no vento,
e quedais, com sorte nova!
[...]
mirai-vos: que sois, agora?
[...]
A estranha potência das palavras é explicada, de certa forma, por meio de sugestivas imagens.
Um dos sentidos sugeridos nesses versos é a