Sobre a Revolta da Vacina, ocorrida entre 10 a 16 de novembro de 1904, no Rio de Janeiro, há diferentes vertentes interpretativas. Leia atentamente as três interpretações seguintes:
1) Para Nicolau Sevcenko, a Revolta da Vacina foi um momento no qual a população, que já não aguentava mais a opressão, deu seu “[...] grito, uma convulsão de dor, uma vertigem de horror e indignação”. E a vacina teria sido somente um pretexto, um estopim para desencadear a revolta latente. A população vivia numa situação de opressão e marginalização causada pela sociedade urbana burguesa que pretendia entrar num novo “patamar” científico e tecnológico.
Fonte: CHALHOUB, Sidney. Cidade febril - cortiços e epidemias na corte imperial. São Paulo: Companhia Das Letras, 1996.p.180.
2) José Murilo de Carvalho, por sua vez, compreende a Revolta da Vacina como uma “revolta fragmentada de uma sociedade fragmentada”, e, o seu estopim não fora a imposição da vacina e sim o caráter moral dessa imposição: os habitantes não concebiam que as mulheres mostrassem seus corpos aos agentes de vacinação. A partir disso, surgiriam várias revoltas, com vários motivos, e, “[...] todos os cidadãos desrespeitados acertaram contas com o governo”.
Fonte: CARVALHO, José Murillo de. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
3) Já Sidney Chalhoub considera que as causas da revolta giram em torno da vacina, no entanto, não se contenta com a explicação de que as pessoas não queriam ser vacinadas por questões morais, procurando traçar os significados culturais da vacina. Nesse sentido, conclui que a população se opõe à vacinação em virtude do fracasso de outras experiências de vacinações, e pela tradição do combate às doenças a partir de elementos da religiosidade afro-brasileira, arraigada na comunidade carioca de 1904. “Sendo a varíola uma doença altamente contagiosa, portanto de manipulação corrente em medicina de diferentes tradições [...] é razoável supor que fosse esta uma área particularmente sensível no conflito entre higienistas e populares em torno de concepções e práticas de cura”.
Fonte: SEVCENKO, N. A revolta da vacina: mentes insanas em corpos rebeldes. São Paulo: Scipione, 1993. p.67.
A diferença interpretativa para o mesmo evento ocorre por quê: