SOMOS TODOS ESTRANGEIROS
[1] Volta e meia, em nosso mundo redondo, colapsa o frágil convívio 1 entre os diversos modos
[2] de ser dos seus habitantes. Neste momento, vivemos uma nova rodada dessas com os inúmeros
[3] refugiados, famílias fugitivas de suas guerras civis e massacres. Eles tentam entrar na mesma
[4] Europa que já expulsou seus famintos e judeus. Esses movimentos introduzem gente destoante
[5] no meio de outras culturas, estrangeiros que chegam falando atravessado, comendo, amando e
[6] rezando de outras maneiras. Os diferentes se estranham.
[7] Fui duplamente estrangeira, no Brasil por ser uruguaia, em ambos os países e nas escolas
[8] públicas por ser judia. A instrução era tentar mimetizar-se, falar com o menor sotaque possível,
[9] ficar invisível no horário do Pai Nosso diário.
[10] Certamente todos conhecem esse sentimento de sentir-se estrangeiro, ficar de fora, de
[11] não ser tão autêntico quanto os outros, ou não ser escolhido para o que realmente importa. Na
[12] infância, tudo é grande demais, amedronta e entendemos fragmentariamente, como recém
[13] chegados. Na puberdade, perdemos a familiaridade com nossos familiares: o que antes parecia
[14] natural começa _______ soar como estrangeiro. Na adolescência, sentimo-nos estranhos ______
[15] quase tudo, andamos por aí enturmados com os da mesma idade ou estilo, tendo apenas uns aos
[16] outros como cúmplices para existir.
[17] O fim desse desencontro deveria ocorrer no começo da vida adulta, quando trabalhamos,
[18] procriamos e tomamos decisões de repercussão social. Finalmente deveríamos sentir-nos
[19] legítimos cidadãos da vida. Porém, julgamos ser uma fraude: imaginávamos que os adultos eram
[20] algo maior, mais consistente do que sentimos ser. Logo em seguida disso, já começamos a achar
[21] que perdemos o bonde da vida. O tempo nos faz estrangeiros _______ própria existência.
[22] Uma das formas mais simples de combater todo esse mal-estar é encontrar outro para
[23] chamar de diferente, de inadequado. Quem pratica o bullying, quer seja entre alunos ou com os
[24] que têm hábitos e aparência distintos do seu, conquista momentaneamente a ilusão da
[25] legitimidade. Quem discrimina arranja no grito e na violência um lugar para si.
[26] Conviver com as diferentes cores de pele, interpretações dos gêneros, formas de amar e
[27] casar, vestimentas, religiões ou a falta delas, línguas faz com que todos sejam estrangeiros. Isso
[28] produz a mágica sensação de inclusão universal: se formos todos diferentes, ninguém precisa
[29] sentir-se excluído. Movimentos migratórios misturam povos, a eliminação de barreiras de casta e
[30] de preconceitos também. Já pensou que delícia se, no futuro, entendermos que na vida ninguém
[31] é nativo. A existência de cada um é como um barco em que fazemos um trajeto ao final do qual
[32] sempre partiremos sem as malas.
Texto adaptado de Diana Corso, publicado em 12 de setembro de 2015. Disponível em:<http://wp.clicrbs.com.br/opiniaozh/2015/09/12/artigo-somos-todos-estrangeiros/?topo=13,1,1,,,13>. Acesso em: 19 out. 2015
Na frase “Quem pratica o bullying, quer seja entre alunos ou com os que têm hábitos e aparência distintos do seu, conquista momentaneamente a ilusão da legitimidade” (linhas 23- 24), a expressão em destaque representa a função sintática de