Sou um homem arrasado. (...) O que estou é velho. Cinquenta anos. Cinquenta anos perdidos, gastos sem objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros. (...) A lembrança de Madalena persegue-me. Diligencio afastá-la e caminho em redor da mesa. Aperto as mãos de tal forma que me firo com as unhas, e, quando caio em mim, estou mordendo os beiços a ponto de tirar sangue. (...) Penso em Madalena com insistência. Se fosse possível recomeçarmos... Para que enganar-me? Se fosse possível recomeçarmos, aconteceria exatamente o que aconteceu. Não consigo modificar-me, é o que mais me aflige. (...) Se ao menos a criança chorasse... Nem sequer tenho amizade a meu filho. Que miséria!
São Bernardo, Graciliano Ramos.
São Bernardo é um romance introspectivo, machadiano na estrutura. A influência de Machado de Assis na obra de Graciliano Ramos é notória, percebe-se muita semelhança entre São Bernardo, de Graciliano Ramos, e Dom Casmurro, de Machado de Assis.
Porém, enquanto Bentinho, protagonista de Dom Casmurro, afunda-se em uma melancolia que é saudade de si próprio e da menina da sua infância; a leitura do fragmento anterior permite inferir que Paulo Honório, protagonista de São Bernardo,