Suicídio entre médicos e estudantes de medicina1
A. M. A. S. Meleiro
A MORTE NA FORMAÇÃO MÉDICA
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1ºO desejo universal de imortalidade faz-nos idealizar um ser onipotente capaz de retardar, deter ou mesmo anular a ameaça de morte. Este ser onipotente idealizado foi chamado de “ser tanatolítico2 ”, e ao conjunto de ações mágicas que lhe são atribuídas, de “complexo tanatolítico”. Entre as motivações para a escolha da profissão da carreira médica, o “complexo tanatolítico” influi fortemente. O perigo a que se expõe o estudante de medicina e, principalmente, o médico no exercício profissional é o de fazer uma identificação total entre seu “eu” e o “ser tanatolítico”, assumindo compromissos onipotentes. Os sentimentos de culpa por fracasso de onipotência (limites de realidade) favorecem o surgimento de quadros depressivos e suicídios, que são evidenciados por dados epidemiológicos, da literatura, de incidência e prevalência, nesse grupo profissional, como mais elevado que a população geral.
2ºO médico por ser, na maioria das vezes, ativo, ambicioso, competitivo, compulsivo, entusiasta e individualista, é facilmente frustrado em suas necessidades de realização e reconhecimento. Isto pode ser suficiente para produzir ansiedade, depressão e necessidade de cuidados psiquiátricos. Mas se houver preconceitos com a Psiquiatria, o médico buscará outras opções, como a somatização, abuso de álcool e drogas e o suicídio.
3ºOs elevados índices de suicídio encontrados nos estudantes de medicina e nos médicos estão relacionados com a perda da onipotência, onisciência e virilidade idealizadas por muitos aspirantes à carreira médica durante o curso e a vida profissional, e a crescente ansiedade pelo temor em falhar.
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4ºA morte passa a ser familiar para o médico, em todas as suas formas, que, diante da facilidade do meio ao seu alcance, além da falta de princípios elevados e inibições morais, passa a adotar o suicídio como uma maneira direta e efetiva de eliminar seus problemas. [...]
5ºÉ um contra-senso sabermos que os estudantes de medicina aprendem e trabalham nas consideradas melhores faculdades do País, com as melhores equipes, e a sensibilidade geral da equipe hospitalar negligencia a saúde do estudante, principalmente com atitudes pejorativas em relação à doença mental. Os esforços das faculdades de medicina, nas últimas décadas, em dar assistência psicológica ao aluno ainda ressoa pouco. [...]
6ºAlunos de medicina com melhor performance escolar encontram-se em um grupo de alto risco de suicídio. Por serem pessoas mais exigentes, estariam mais propensas a sofrer as pressões impostas diante de qualquer falha. O estudante passa a ter culpa pelo que não sabe e com isso se sente paralisado pelo medo de errar. Esses quadros caracterizam-se por sentimentos de desvalia e impotência, que, muitas vezes, são responsáveis por ideias de abandono do curso, depressão e suicídio.
7ºOs níveis de perturbações emocionais em médicos jovens parecem estar aumentando, e ainda assim são raras as publicações de relatório de implementação de medidas preventivas ou programas de intervenção durante o treinamento e prática médica. No Brasil, há alguns fatores estressantes associados ao exercício profissional: sobrecarga horária, privação de sono, comportamento idealizado – contato intenso e frequente com a dor e o sofrimento; lidar com a intimidade corporal e emocional – contato com a morte e com o morrer; lidar com pacientes difíceis – incertezas e limitações do conhecimento médico, isto é, o medo do erro médico. [...]
8ºO melhor exemplo que os médicos podem dar é o próprio. Pelo voto que fizeram e a licença que obtiveram, os médicos comprometeram-se a ser o modelo na prescrição e uso de drogas.
9ºComo pode o médico ser modelo se, como ser humano que é, seu raciocínio científico se contamina e empobrece às custas da necessidade deste controle mágico e onipotente. [...]
10ºVários estudos mostram que cerca de dois terços dos indivíduos que se suicidam comunicaram suas intenções previamente para a família, amigos ou médicos, o que demonstra a importância de se ter uma comunidade no meio acadêmico – bem como no meio médico – receptiva e com um papel facilitador da busca de ajuda preventiva. [...]
11ºÉ fundamental o preparo do estudante de medicina diante das reais condições de seu futuro trabalho, não estimulá-lo a utilizar idealizações onipotentes para enfrentar situações de difícil controle durante sua vida profissional.
12ºPara o médico já em exercício da profissão, um programa de conscientização e orientação de que a informação técnica anteriormente adquirida não lhe dá imunidade aos conflitos emocionais. Publicações constantes para familiarização por parte dos colegas médicos com a profilaxia e reconhecimento dos sinais preditivos de suicídio. Desenvolvimento de uma assistência psiquiátrica e psicoterápica para médicos em risco de suicídio. Preparo de profissionais para lidar com esse grupo de pacientes, pois os sentimentos positivos e negativos da contratransferência se misturam, principalmente os de identificação. [...]
13ºNossa classe deve tornar mais sensível a existência desse problema e mais apta a reconhecer “o pedido de ajuda” de um colega e de si mesmo, sem, contudo, deixar de zelar pelos interesses do público.
Examine as proposições seguintes, acerca do 8º, 9º, 10º, 11º, 12º e 13º parágrafos do texto.
1. No primeiro período do 8º parágrafo, há um conectivo da ideia oracional caracterizadora com função restritiva.
2. No 8º parágrafo, o segundo período sugere uma ideia causal à ideia do primeiro período.
3. O 9º parágrafo supõe que o médico não seja modelo na prescrição e uso de drogas.
4. O 9º parágrafo afirma que a necessidade de controle do médico empobrece seu raciocínio científico, usurpando-lhe a condição de ser modelo, enquanto ser humano.
5. O 10º parágrafo não atende às normas da língua padrão e utiliza a palavra “que” com a mesma função em três casos.
6. O trecho seguinte, do 10º parágrafo, contém uma palavra indicadora de posse, outra de finalidade, outra de alternativa e, duas definidoras de substantivos: “...comunicaram suas intenções previamente para a família, amigos ou médicos, o que demonstra...”.
7. O 11º parágrafo prima pela adequação vocabular, frasal, coerência, concisão, coesão, correção gramatical e, especialmente pela clareza do discurso.
8. O primeiro sinal de pontuação no primeiro período do 12º parágrafo exerce mais a função de um verbo do que de fazer cisão ou separar partes do discurso frasal.
9. Há ambiguidade e falta de clareza no trecho seguinte do 12º parágrafo: “Publicações constantes para familiarização por parte dos colegas médicos com a profilaxia e reconhecimento dos sinais preditivos de suicídio. ”
10. O autor se identifica como membro da classe médica e, categoricamente, na ordem indireta, afirma que a classe dele [deve tornar a existência desse problema mais sensível], no seguinte trecho do 13º parágrafo: “Nossa classe deve tornar mais sensível a existência desse problema...”, fato que não foge à intenção do emissor.
A soma dos números das afirmações incorretas menos a soma dos números das afirmações corretas é: