“Tais eram as reflexões que eu vinha fazendo, por aquele Valongo fora, logo depois de ver e ajustar a casa. Interrompeumas um ajuntamento; era um preto que vergalhava outro na praça. O outro não se atrevia a fugir; gemia somente estas únicas palavras: - Não, perdão, meu senhor; meu senhor, perdão! - Mas o primeiro não fazia caso, e, a cada súplica, respondia com uma vergalhada nova.
- Toma, diabo! - dizia ele; toma mais perdão, bêbado!
- Meu senhor! - gemia o outro.
- Cala a boca, besta! - replicava o vergalho.
Parei, olhei...
Justos céus! Quem havia de ser o do vergalho? Nada menos que o meu moleque Prudêncio - o que meu pai libertara alguns anos antes. Cheguei-me; ele deteve-se logo e pediu-me a bênção; perguntei-lhe se aquele preto era escravo dele.
- É, sim, nhonhô.
- Fez-te alguma coisa?
- É um vadio e um bêbado muito grande. Ainda hoje deixei ele na quitanda, enquanto eu ia lá embaixo na cidade, e ele deixou a quitanda para ir na venda beber.
- Está bom, perdoa-lhe – disse eu.
- Pois, não, nhonhô. Nhonhô manda, não pede. Entra para casa, bêbado!”
ASSIS, Machado. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: FTD, 1991, p. 111.
A partir do fragmento e da obra Memórias póstumas de Brás Cubas, avalie as assertivas a seguir.
I - Esse trecho exemplifica o comportamento agressivo de homens que eram escravos de grandes senhores, conforme o espírito de romances naturalistas no qual essa obra está inserida.
II - Prudêncio ostenta como proprietário (senhor) de um escravo. Entretanto, ao obedecer à ordem de Brás Cubas, seu antigo carrasco, Prudêncio retorna à condição de submisso da qual não havia saído. Ele demonstra não ter sido preparado para assumir o novo regime de vida com liberdade.
III - Ao espancar o escravo com violenta tirania, após ter sido alforriado, Prudêncio repete em outro preto o mesmo sofrimento pelo qual ele passara, antes de liberto, e seu comportamento revela ser o reflexo do sistema escravocrata praticado no Brasil.
É correto o que se afirma em