TEXTO 1
O excretar lá de cima
[1] Eu morava no 111. Ele, no 211. Vivia eu, portanto, sob as suas pantufas. Ele,
sobre o meu lustre. O meu apartamento não era de todo ruim. Tinha, todavia, um
defeito lamentável: eu escutava tudo o que se passava no de cima.
Aquilo me irritava profundamente. Mediante despertador, eu acordava,
[5] invariavelmente, às seis e meia. Nesta hora, sempre, escutava-o no banho. Às seis e
quarenta, enquanto me barbeava, a chaleira dele apitava, ouvia os seus passos na
cozinha e o tilintar da xícara, pires e talheres. Logo após, eu permanecia cinco minutos
sem ouvi-lo, posto que era a minha vez de tomar banho e, então, só escutava o meu
chuveiro. Às seis e cinquenta, porém, enquanto preparava meu suco de laranja,
escutava-o excretar, com fortes ruídos, aquilo que, na véspera, muito comera e bebera.
[10] Dois ou três minutos mais, vinha o som da descarga. Às sete em ponto, à terceira ou à
quarta badalada do meu velho carrilhão, ele abria e fechava a porta. Um minuto após,
através da janela, eu o via, sempre vestindo cinza, gordalhufo, passos lentos, dobrar a
esquina em direção ao Centro.
HAMMS, Jair Francisco. O detetive de Florianópolis. Florianópolis: UFSC, 2013, p. 188.
Assinale a alternativa correta em relação à crônica O excretar lá de cima, Jair Francisco Hamms, e ao Texto 1.