Texto 1
O milagre das folhas
[1] Não, nunca me acontecem milagres. Ouço
falar, e às vezes isso me basta como
esperança. Mas também me revolta: por que
não a mim? Por que só de ouvir falar? Pois já
[5] cheguei a ouvir conversas assim, sobre
milagres: “Avisou-me que, ao ser dita
determinada palavra, um objeto de estimação
se quebraria”. Meus objetos se quebram
banalmente e pelas mãos das empregadas.
[10] Até que fui obrigada a chegar à conclusão
de que sou daqueles que rolam pedras durante
séculos, e não daqueles para os quais os seixos
já vêm prontos, polidos e brancos. Bem que
tenho visões fugitivas antes de adormecer –
[15] seria milagre? Mas já me foi tranquilamente
explicado que isso até nome tem: cidetismo
(sic), capacidade de projetar no alucinatório as
imagens inconscientes.
Milagre, não. Mas as coincidências. Vivo de
[20] coincidências, vivo de linhas que incidem uma
na outra e se cruzam e no cruzamento formam
um leve e instantâneo ponto, tão leve e
instantâneo que mais é feito de pudor e
segredo: mal eu falasse nele, já estaria falando
[25] em nada.
Mas tenho um milagre, sim. O milagre das
folhas. Estou andando pela rua e do vento me
cai uma folha exatamente nos cabelos. A
incidência da linha de milhões de folhas
[30] transformadas em uma única, e de milhões de
pessoas a incidência de reduzi-las a mim. Isso
me acontece tantas vezes que passei a me
considerar modestamente a escolhida das
folhas. Com gestos furtivos tiro a folha dos
[35] cabelos e guardo-a na bolsa, como o mais
diminuto diamante.
Até que um dia, abrindo a bolsa, encontro
entre os objetos a folha seca, engelhada,
morta. Jogo-a fora: não me interessa fetiche
[40] morto como lembrança. E também porque sei
que novas folhas coincidirão comigo.
Um dia uma folha me bateu nos cílios. Achei
Deus de uma grande delicadeza.
Os dois últimos parágrafos do texto constituem uma sequência