Texto 13
Irene no Céu
Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.
Imagino Irene entrando no céu:
- Licença meu branco!
E São Pedro bonachão:
- Entra, Irene. Você não precisa pedir
licença.
(Manuel Bandeira)
Texto 14
Essa Negra Fulô
Ora, se deu que chegou
(isso já faz muito tempo)
no bangüê dum meu avô
uma negra bonitinha,
chamada negra Fulô.
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
— Vai forrar a minha cama,
pentear os meus cabelos,
vem ajudar a tirar
a minha roupa, Fulô!
Essa negra Fulô!
Essa negrinha Fulô
ficou logo pra mucama,
pra vigiar a Sinhá
pra engomar pro Sinhô!
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
vem me ajudar, ó Fulô,
vem abanar o meu corpo
que eu estou suada, Fulô!
vem coçar minha coceira,
vem me catar cafuné,
vem balançar minha rede,
vem me contar uma história,
que eu estou com sono, Fulô!
Essa negra Fulô!
“Era um dia uma princesa
que vivia num castelo
que possuía um vestido
com os peixinhos do mar.
Entrou na perna dum pato
saiu na perna dum pinto
o Rei-Sinhô me mandou
que vos contasse mais cinco.”
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô? Ó Fulô?
Vai botar para dormir
esses meninos, Fulô!
[Essa Negra Fulô – continuação]
“Minha mãe me penteou
minha madrasta me enterrou
pelos figos da figueira
que o Sabiá beliscou.”
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô? Ó Fulô?
(Era a fala da Sinhá
Chamando a negra Fulô.)
Cadê meu frasco de cheiro
Que teu Sinhô me mandou?
— Ah! Foi você que roubou!
Ah! Foi você que roubou!
O Sinhô foi ver a negra
levar couro do feitor.
A negra tirou a roupa.
O Sinhô disse: Fulô!
(A vista se escureceu
que nem a negra Fulô.)
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê meu lenço de rendas,
Cadê meu cinto, meu broche,
Cadê o meu terço de ouro
que teu Sinhô me mandou?
Ah! foi você que roubou.
Ah! foi você que roubou.
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
O Sinhô foi açoitar
sozinho a negra Fulô.
A negra tirou a saia
e tirou o cabeção,
de dentro pulou
nuinha a negra Fulô.
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê, cadê teu Sinhô
que Nosso Senhor me mandou?
Ah! Foi você que roubou,
foi você, negra fulô?
Essa negra Fulô!
(Jorge de Lima)
Texto 15
NEGRA
A negra para tudo
a negra para todos
a negra para capinar plantar
regar
colher carregar empilhar no paiol
ensacar
lavar passar remendar costurar
cozinhar rachar lenha
limpar a bunda dos nhozinhos
trepar.
A negra para tudo
nada que não seja tudo tudo tudo
até o minuto de
(único trabalho para seu proveito
exclusivo)
morrer.
(Carlos Drummond de Andrade)
Observe os três poemas que, apesar de autores diferentes, apresentam alguns pontos em comum.Sobre eles, coloque V nas afirmativas verdadeiras e F nas falsas.
( ) Em Essa Negra Fulô e em Negra, o eu poético revela ser herdeiro de preconceito, pois o termo negra é, no contexto dos dois poemas, uma palavra que demonstra uma condição de inferioridade reveladora de uma atitude racista, própria daqueles que admitem ter sido necessária a escravidão para o progresso.
( ) Manuel Bandeira, diferentemente de Jorge de Lima e Carlos Drummond de Andrade, critica, com veemência, em Irene no céu, o comportamento dos antigos senhores de escravos, quando demonstra a atenção e o carinho de São Pedro, permitindo que Irene entre no céu, ao dizer: “Entra, Irene. Você não precisa pedir licença”.
( ) Carlos Drummond de Andrade, Jorge de Lima e Manuel Bandeira criaram três poemas narrativos em que se relata a história de três escravos, todos eles trabalhadores dos engenhos de açúcar de Minas Gerais, Alagoas e Pernambuco, estados onde respectivamente nasceram esses poetas.
( ) Os três poemas apresentam vocabulários diferenciados, mas, em todos, a imagem da negra tem o beneplácito dos autores. Bandeira enxerga Irene sem pecado, Jorge de Lima explora a sensualidade da Negra Fulô e Drummond critica o tratamento dado à escrava.
( ) Os três poemas são lírico-amorosos, defendem a postura da mulher. Além de serem estruturados em redondilhas maior e menor, apresentam rimas cruzadas e interpoladas. Trata-se, portanto, de textos em que a preocupação formal se revela mais importante que o conteúdo.
Assinale a alternativa que contém a sequência CORRETA.