TEXTO 2
[1] A vida de geladeira me lembrava a infância quando nos prendiam no quarto com
uma daquelas doenças inevitáveis: sarampo, caxumba, catapora. Ali ainda era possível
olhar pela janela a chuva fininha caindo nas ruas de Minas, a tropa de burros
transportando carvão, a cara do carvoeiro manchada de negro nas bochechas. Os
[5] adultos apareciam de tarde e de manhã, colocavam o termômetro não sem balançá-lo
energicamente antes. Quando tiravam o termômetro e se aproximavam da claridade,
discutiam em voz baixa. Trinta e sete e meio, normal; não, trinta e sete e meio ainda é
febre. Não sabíamos o que significavam realmente aqueles números e nem aquela
coisa fria debaixo do braço. Mas a palavra febre era definitiva. Com febre você não
[10] pode sair; enquanto você tiver febre você terá de ficar dentro do quarto. De manhã você
tinha menos febre, de tarde as coisas pioravam. E isto era todo dia. Por que não enfiar
aquele termômetro só de manhã?
Aquela altura os jornais já haviam publicado reportagens relativamente extensas e
exatas sobre o seqüestro do Embaixador americano. O Rio de Janeiro estava ainda fora
[15] de propósito. Para onde ir? As coisas estavam nesse pé: iríamos para algum lugar que
não fosse o Rio de Janeiro, dentro de algum tempo. Não sei se o leitor/a já se meteu
nessas complicações onde há muitas variáveis desconhecidas. Minha técnica é de
abandonar algumas e me fixar na mais viável. Não me perguntava tanto quando sairia e
sim para onde sairia. O problema do quando se resolveria depois.
Adap. GABEIRA, Fernando. O que é isso, companheiro? Rio de Janeiro: Codecri, 1979, p. 139.
Analise as proposições em relação à obra O que é isso, companheiro?, Fernando Gabeira, e ao Texto 2.
I. Se a estrutura linguística “colocavam o termômetro não sem balançá-lo energicamente antes” (linhas 5 e 6) for assim reescrita: colocavam o termômetro não sem o balançar energicamente antes, quanto à colocação pronominal, mantém-se o padrão culto da língua.
II. A leitura da obra leva o leitor a inferir que se trata de uma narrativa de caráter memorialístico e realista, de uma história recente do país, em que são relatados episódios da luta contra a ditadura militar no Brasil desde 1964 (golpe), passando por 1968 (AI-5), até meados da década de 1970.
III. Os dois pontos em “quando nos prendiam no quarto com uma daquelas doenças inevitáveis: sarampo, caxumba, catapora” (linhas 1 e 2) justificam-se por introduzir um aposto enumerativo.
IV. A estrutura linguística “iríamos para algum lugar que não fosse o Rio de Janeiro” (linhas 15 e 16) o verbo ir rege uma expressão que indica lugar, a substituição da preposição destacada por a não altera a estrutura linguística do texto.
V. A leitura do texto leva o leitor a inferir que em “discutiam em voz baixa” (linha 7) há o pressuposto de que havia febre, logo havia perigo; da mesma forma que em “de tarde as coisas pioravam” (linha 11) há o pressuposto de que a febre sempre aumentava no final do dia.
Assinale a alternativa correta.