TEXTO 2
[1] A vida de geladeira me lembrava a infância quando nos prendiam no quarto com
uma daquelas doenças inevitáveis: sarampo, caxumba, catapora. Ali ainda era possível
olhar pela janela a chuva fininha caindo nas ruas de Minas, a tropa de burros
transportando carvão, a cara do carvoeiro manchada de negro nas bochechas. Os
[5] adultos apareciam de tarde e de manhã, colocavam o termômetro não sem balançá-lo
energicamente antes. Quando tiravam o termômetro e se aproximavam da claridade,
discutiam em voz baixa. Trinta e sete e meio, normal; não, trinta e sete e meio ainda é
febre. Não sabíamos o que significavam realmente aqueles números e nem aquela
coisa fria debaixo do braço. Mas a palavra febre era definitiva. Com febre você não
[10] pode sair; enquanto você tiver febre você terá de ficar dentro do quarto. De manhã você
tinha menos febre, de tarde as coisas pioravam. E isto era todo dia. Por que não enfiar
aquele termômetro só de manhã?
Aquela altura os jornais já haviam publicado reportagens relativamente extensas e
exatas sobre o seqüestro do Embaixador americano. O Rio de Janeiro estava ainda fora
[15] de propósito. Para onde ir? As coisas estavam nesse pé: iríamos para algum lugar que
não fosse o Rio de Janeiro, dentro de algum tempo. Não sei se o leitor/a já se meteu
nessas complicações onde há muitas variáveis desconhecidas. Minha técnica é de
abandonar algumas e me fixar na mais viável. Não me perguntava tanto quando sairia e
sim para onde sairia. O problema do quando se resolveria depois.
Adap. GABEIRA, Fernando. O que é isso, companheiro? Rio de Janeiro: Codecri, 1979, p. 139.
Assinale a alternativa incorreta em relação à obra O que é isso, companheiro?, Fernando Gabeira, e ao Texto 2.