TEXTO 2
[1] –Tá fazendo um dia lindo.
Essas palavras foram com Pirulito pela rua. Um dia lindo, e o menino ia
despreocupado, assoviando um samba que lhe ensinara o Querido-de-Deus,
recordando que o padre José Pedro prometera tudo fazer para lhe conseguir um lugar
[5] no seminário. Padre José Pedro lhe dissera que toda aquela beleza que caia
envolvendo a terra e os homens era um presente de Deus e que era preciso agradecer
a Deus. Pirulito mirou o céu azul onde Deus devia estar e agradeceu num sorriso e
pensou que Deus era realmente bom. E pensando em Deus pensou também nos
Capitães da Areia. Eles furtavam, brigavam nas ruas, xingavam nomes, derrubavam
[10] negrinhas no areal, por vezes feriam com navalhas ou punhal homens e polícias. Mas,
no entanto, eram bons, uns eram amigos dos outros. Se faziam tudo aquilo é que não
tinham casa, nem pai, nem mãe, a vida deles era uma vida sem ter comida certa e
dormindo num casarão quase sem teto. Se não fizessem tudo aquilo morreriam de
fome, porque eram raras as casas que davam de comer a um, de vestir a outro. E nem
[15] toda a cidade poderia dar a todos. Pirulito pensou que todos estavam condenados ao
inferno. Pedro Bala não acreditava no inferno, Professor tampouco, riam dele. João
Grande acreditava em Xangô, em Omolu, nos deuses dos negros que vieram da África.
O Querido-de-Deus, que era um pescador valente e um capoeirista sem igual, também
acreditava neles, misturava-os com os santos dos brancos que tinham vindo da Europa.
AMADO, Jorge. Capitães da areia. 60ª ed. Rio de Janeiro, 1984, p. 97.
Assinale a alternativa correta em relação à obra Capitães da areia, Jorge Amado, e ao Texto 2.