TEXTO 2
CAPÍTULO XXXIII
A SOLIDÃO TAMBÉM CANSA
[1] Mas tudo cansa, até a solidão. Aires entrou a sentir uma ponta de aborrecimento; bocejava,
cochilava, tinha sede de gente viva, estranha, qualquer que fosse, alegre ou triste. Metia-se por
bairros excêntricos, trepava aos morros, ia às igrejas velhas, às ruas novas, à Copacabana e à
Tijuca. O mar ali, aqui o mato e a vista acordavam nele uma infinidade de ecos, que pareciam as
[5] próprias vozes antigas. Tudo isso escrevia, às noites, para se fortalecer no propósito da vida
solitária. Mas não há propósito contra a necessidade.
A gente estranha tinha a vantagem de lhe tirar a solidão, sem lhe dar a conversação. As
visitas de rigor que ele fazia eram poucas, breves e apenas faladas. E tudo isso foram os primeiros
passos. A pouco e pouco sentiu o sabor dos costumes velhos, a nostalgia das salas, a saudade do
[10] riso, e não tardou que o aposentado da diplomacia fosse reintegrado no emprego da recreação. A
solidão, tanto no texto bíblico, como na tradução do padre, era arcaica. Aires trocou-lhe uma
palavra e o sentido: " Alonguei-me fugindo, e morei entre a gente".
Assim se foi o programa da vida nova. Não é que ele já a não entendesse nem amasse, ou
que a não praticasse ainda alguma vez, a espaços, como se faz uso de um remédio que obriga a
[15] ficar na cama ou na alcova; mas sarava depressa e tornava ao ar livre. Queria ver a outra gente,
ouvi-la, cheirá-la, gostá-la, apalpá-la, aplicar todos os sentidos a um mundo que podia matar o
tempo, o imortal tempo.
MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Esaú e Jacó. São Paulo, Ática,1975. Série Bom livro. p.52.
Com base na leitura da obra Esaú e Jacó, Machado de Assis, e no Texto 2 analise as proposições.
I. É o Conselheiro Aires o personagem esclarecedor, pois à medida que o romance se desenvolve é ele quem vai decifrando, explicando e operando “os comos”, “os porquês” e “os quês” dos acontecimentos.
II. A leitura da obra leva o leitor a inferir que o momento histórico tão divergente, no Brasil, pode ser representado pelos gêmeos, Pedro o monarquista-conservador e Paulo o liberal-republicano.
III. A obra pontua várias características do Romantismo, como detalhismo descritivo, valorização da cor local, nacionalismo pós-independência, dever patriótico, introspecção psicológica.
IV. Na estrutura “Aires trocou-lhe uma palavra e o sentido” (linhas 11 e 12), quanto à morfossintaxe, as palavras destacadas são substantivo próprio/sujeito, pronome oblíquo/objeto indireto e substantivo/objeto direto, sequencialmente.
V. A leitura da obra leva o leitor a inferir que a semelhança entre os gêmeos está relacionada a não percepção da diferença entre Monarquia e República pelo brasileiro à época, e aí reside a crítica machadiana, característica tão peculiar deste autor.
Assinale a alternativa correta.