TEXTO 2
RITA
No meio da noite despertei sonhando com
minha filha Rita. Eu a via nitidamente, na
graça de seus cinco anos.
[15] Seus cabelos castanhos — a fita azul — o
nariz reto, correto, os olhos de água, o fino
riso, engraçado, brusco...
Depois um instante de seriedade; minha
filha Rita encarando a vida sem medo, mas
[20] séria, com dignidade.
Rita ouvindo música; vendo campos,
mares, montanhas; ouvindo de seu pai o
pouco, o nada que ele sabe das coisas, mas
pegando dele seu jeito de amar — sério,
[25] quieto, devagar.
Eu lhe traria cajus amarelos e vermelhos,
seus olhos brilhariam de prazer. Eu lhe
ensinaria a palavra cica, e também a amar os
bichos tristes, a anta e a pequena cutia; e o
[30] córrego; e a nuvem tangida pela viração.
Minha filha Rita em meu sonho me sorria
— com pena deste seu pai, que nunca a teve.
(Rubem Braga. 200 crônicas escolhidas. p.308.)
Segundo o crítico Afrânio Coutinho, a marca registrada dos textos de Rubem Braga é a "crônica poética, na qual alia um estilo próprio a um intenso lirismo, provocado pelos acontecimentos cotidianos, pelas paisagens, pelos estados de alma, pelas pessoas, pela natureza". Consideremos que a crônica "Rita" apresenta características de um poema em prosa, ou de uma prosa poética. Aponte o elemento do texto que NÃO sustenta essa aproximação.