TEXTO 4
[1] A Ilha Grande não merecia ser um presídio. Desde as casas brancas dos
pescadores que foram ficando para trás, lá embaixo, no Abraão, até os caminhos
sinuosos que vão cortando as montanhas, tudo parece um cenário de liberdade. Olho
para baixo e lá está o azul para se mergulhar, aquela faixa molhada da praia onde
[5] costumamos caminhar para refrescar os pés, o toque da brisa. Além do mais há mato,
vegetação, verde. Tudo aqui é tão selvagem, tão natural, como é que poderiam ter
imaginado um presídio nesta Ilha? Teria sido um requinte de crueldade, deixar que os
punidos se lembrem diariamente da água, da areia, da brisa e do mato?
Quando chegamos, todos os presos que tinham vista para a entrada estavam
[10] colados nas grades das celas. Queriam ver as novas caras. A Ilha seria o presídio de
muitos anos, o lugar onde ficaríamos, talvez para sempre. Íamos olhando todo aquele
cenário curioso, mas também com uma certa calma de quem vai reencontrá-lo muitas
vezes. Passamos a guarda na entrada, penetramos no prédio branco, ganhamos
uniformes e fomos introduzidos na galeria dos presos políticos.
Gabeira, Fernando. O que é isso, companheiro? Rio de Janeiro: Codecri, 1979, p. 181.
Analise as proposições em relação à obra O que é isso, companheiro?, Fernando Gabeira, e ao Texto 4.
I. Na língua portuguesa, alguns substantivos mudam de sentido quando se alteram seus gêneros, a exemplo, “a guarda” (linha 13), o guarda. O mesmo ocorre com os substantivos a cabeça, o cabeça; a moral, o moral; a estigma, o estigma.
II. Da leitura do sintagma “Queriam ver as novas caras “(linha 10) infere-se que os detentos, que se encontravam na Ilha, ansiavam por ver somente os presos de pouca idade que lá chegavam.
III. A obra, apesar de ter sido escrita no período pós-modernista, apresenta vocabulário rebuscado, remetendo-a aos moldes do estilo barroco.
IV. Da leitura da passagem “Teria sido um requinte de crueldade, deixar que os punidos se lembrem diariamente da água, da areia, da brisa e do mato?” (linhas 7 e 8) depreende-se um tom irônico que sugere o tratamento dado ao preso político à época.
V. Em “lá embaixo, no Abraão, até os caminhos” (linha 2) as vírgulas foram usadas para separar adjuntos adverbiais.
Assinale a alternativa correta.