Texto 4
[1] Tudo se mistura, à meia claridade; tal seria a causa da fusão dos vultos, que de
dois que eram, ficaram sendo um só. Flora, não tendo visto sair nenhum dos gêmeos,
mal podia crer que formassem agora uma só pessoa, mas acabou crendo, mormente
depois que esta única pessoa solitária parecia completá-la interiormente, melhor que
[5] nenhuma das outras em separado. Era muito fazer e desfazer, mudar e transmudar.
Pensou enganar-se, mas não; era uma só pessoa, feita das duas e de si mesma, que
sentia bater nela o coração. Estava tão cansada de emoções que tentou erguer-se e ir
fora, mas não pôde; as pernas pareciam de chumbo e coladas ao solo. Assim esteve, até
que a lamparina, ao canto, morreu de todo. Flora teve um sobressalto na poltrona, e
[10] ergueu-se:
- Que é isto?
A lamparina apagou-se. Foi acendê-la. Viu então que estava sem um nem outro,
sem dois nem um só fundido de ambos. Toda a fantasmagoria se desfizera. A lamparina
(agora nova) alumiava o seu quarto de dormir, e a imaginação criara tudo. Foi o que ela
[15] supôs, e o leitor sabe. Flora compreendeu que era tarde, e um galo confirmou essa
opinião, cantando; outros galos fizeram a mesma cousa.
- Ora, meu Deus! exclamou a filha de Batista.
Meteu-se na cama, e, se não dormiu logo, também não se demorou muito; não tardou a
estar com os anjos. Sonhou com o canto dos galos, uma carroça, um lago, uma cena de
[20] viagem do mar, um discurso e um artigo. O artigo era de verdade. A mãe veio acordá-la,
às dez horas da manhã, chamando-lhe dorminhoca, e ali mesmo na cama, lhe leu uma
folha da manhã que recomendava o marido ao governo. Flora ouviu satisfeita; acabara a
grande noite.
MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Esaú e Jacó. São Paulo, Ática, 1975. Série Bom livro. p.116.
Assinale a alternativa incorreta em relação à obra Esaú e Jacó, Machado de Assis, e ao Texto 4.