TEXTO 5
[...]
[1] Ali está o pai com o filho idiota diante da fonoaudióloga. Quase esquece que tem uma
filha normal que precisa dele também, talvez muito mais que o filho – mas crianças normais ]
só precisam de água, que elas vão crescendo como couves, ele imagina. É como se (o velho
álibi) antes de qualquer coisa ele precisasse se reencontrar, para só então estar apto a cuidar
[5] dos outros. O problema é que não há tempo para nada, ou, dizendo de outro modo, a única
coisa que acontece é o tempo, mais nada – essa a sensação devoradora. Sim, a criança não
se concentra muito, diz a fonoaudióloga, e ele se afasta dali quase arrastando o filho, e no
corredor como que sente o olhar agudo dos outros para o pai que leva aos trancos uma
pequena vergonha nas mãos, incapaz de repetir duas ou três palavras numa sentença
[10] simples. (E no entanto a criança abraça-o com uma entrega física quase absoluta, como
quem se larga nas mãos da natureza e fecha os olhos.)
[...]
(TEZZA, Cristóvão. O filho eterno. 9ª ed. São Paulo: Record, p. 145.)
Com base no Texto 5 e na obra O filho eterno, de Cristóvão Tezza, analise as proposições abaixo.
I. Focando as percepções do pai, pode-se inferir que a trama narrativa explora um dos sentimentos mais mesquinhos do homem – a vergonha.
II. O período “que elas vão crescendo como couves” (linha 3) exprime uma circunstância de comparação.
III. Em “uma pequena vergonha” (linhas 8 e 9), o autor estabelece uma coesão semântica com “filho idiota” (linha 1).
IV. No período “a criança não se concentra muito, diz a fonoaudióloga, e ele se afasta dali” (linhas 6 e 7), há apenas discurso direto.
V. O excerto e a leitura da obra revelam uma forte rejeição do pai para com o filho e do filho para com o pai.
Assinale a alternativa correta.