Texto 8
Na casa a que o retirante chega, estão cantando excelências para um defunto, enquanto um homem, do lado de fora, vai parodiando as palavras dos cantadores
— Finado Severino,
quando passares em Jordão
e os demônios te atalharem
perguntando o que é que levas...
— Dize que levas cera,
capuz e cordão
mais a Virgem da Conceição.
— Finado Severino,
etc. ...
— Dize que levas somente
coisas de não:
fome, sede, privação.
— Finado Severino,
etc. ..
— Dize que coisas de não,
ocas, leves:
como o caixão, que ainda deves.
— Uma excelência
dizendo que a hora é hora.
— Ajunta os carregadores
que o corpo quer ir embora.
— Duas excelências...
— ... dizendo é a hora da plantação.
— Ajunta os carregadores...
— ... que a terra vai colher a mão.
MELO NETO, João Cabral de. Morte e Vida Severina. Alfaguara Brasil, 2007.
Considerando a natureza do texto poético e suas funções estéticas, analise as afirmativas a seguir:
I. O eu lírico, consciente de que Severino não tem noção do que o espera ao longo de sua jornada, em vários momentos do fragmento analisado, demonstra um certo desdém em relação ao problema de Severino.
II. O que se pede a Severino, por meio das excelências cantadas, é uma tentativa de adverti-lo do quanto a sua peregrinação é simples e fácil, do quanto a sua peregrinação é pouco relevante.
III. O defunto, velado pelos cantadores de excelência, não é uma figura incomum da região por onde Severino caminha; logo a “morte” de outros não é uma ocorrência exótica para Severino.
IV. Em razão de sua estrutura textual – ver, por exemplo, o uso do sinal de travessão – o fragmento analisado tem relação de semelhança com a estrutura de um texto dito dramático.
V. Severino, no momento em que chega à casa onde estão sendo cantadas excelências, encontra um ambiente que será frequente durante boa parte de sua caminhada: a ambiência da morte.
Está CORRETO o que se afirma em