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A IMPORTÂNCIA DA MÍDIA PARA A SAÚDE DA POPULAÇÃO
Divulgadores em saúde não devem ser vistos como profissionais que simplesmente escrevem comunicados
relacionados à saúde para a mídia, mas são integrantes fundamentais do sistema de saúde. É grande
a responsabilidade dos meios de comunicação de massa devido ao seu grande potencial em influenciar
comportamentos, mesmo quando a informação é em formato de entretenimento. A influência da mídia
[5] não se restringe à população leiga como fonte primária de informação em saúde, mas influencia também os
próprios profissionais de saúde e os cientistas.
A comunicação em saúde no mundo contemporâneo enfrenta uma série de gargalos para o seu pleno
desenvolvimento, entre eles:
• O próprio ritmo de produção do atual jornalismo, que faz com que na maioria das vezes a equipe só receba
[10] o press release da instituição ou do periódico em que a pesquisa está sendo publicada e já o publica sem
qualquer mudança ou questionamento. Não há tempo para se trabalhar a matéria ou ir atrás de uma outra
opinião;
• Cada vez menos veículos de comunicação têm editorias de saúde e ciência e tecnologia. Existem ainda
poucos jornalistas científicos especializados, e a classe reconhece que é pouco treinada para divulgar
[15] dados científicos sem risco de perder a credibilidade da informação. Ao mesmo tempo, estudos mostram
um crescente domínio de matérias oriundas de relações públicas nas agências de notícias, chegando a
dominar mais de 2/3 do total de notícias. Cresce também o conflito de interesse por parte de jornalistas
e dos meios de comunicação em massa que às vezes exercem o papel de relações públicas de alguns
“clientes” e não o de jornalismo, função esta que tem recebido o nome de relações públicas maquiadas de
[20] jornalismo ou “parajornalismo”.
As doenças “negligenciadas”
• É frequente a divulgação de uma pesquisa sem a contextualização do que ela acrescenta ou discorda do
conjunto de evidências anteriores. Essa contextualização pode ser evitada pelo jornalista para que a notícia
não perca sua força de pesquisa inédita. Além disso, é pouco frequente a exposição de controvérsias nos
[25] temas abordados, que é um dos pilares da dinâmica do processo científico;
• A participação do jornalismo científico tem sido crescente nos meios de comunicação de massa, mas
ainda ocupa pouco espaço quando comparado aos tradicionais assuntos de política e economia. Dentre
os diversos campos da ciência, o jornalismo em saúde é o mais presente na mídia e o que mais cresce nas
últimas duas décadas. E esse crescimento é tão exponencial que tem sido chamado de “medicalização do
[30] jornalismo científico”.
Mesmo que o jornalismo em saúde esteja recebendo maior atenção da mídia em relação aos outros campos
da ciência, nem sempre a prioridade de divulgação coincide com aquilo que é potencialmente mais
relevante para a sociedade. A divulgação de notícias com teor sensacionalista é frequentemente priorizada
pelos meios de comunicação de massa, já que têm mais apelo comercial. Não é incomum observarmos que
[35] no mesmo dia em que temos a publicação de um estudo científico de alta relevância para a saúde pública,
como, por exemplo, um grande estudo populacional definindo o risco do consumo de café por mulheres
grávidas, abrimos os mais importantes jornais e sites de notícia na internet e podemos ler o caso de um
adolescente sueco que jogou videogame por 24 h e apresentou uma suposta crise epiléptica. Além disso,
existem alguns temas que não são tão bem-vindos pela mídia quanto outros. Uma nova pesquisa sobre o
[40] efeito do vinho tinto sobre a longevidade é uma notícia com muito mais apelo do que as relacionadas a
doenças infecciosas que afetam prioritariamente as populações com baixo nível socioeconômico, também
chamadas de doenças “negligenciadas”
Artigos sobre pesquisas científicas
No Brasil, recentemente liderei uma pesquisa do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da
[45] Unicamp. A pesquisa avaliou a qualidade das notícias em ciência na área de saúde dos dois maiores jornais
brasileiros – Folha de S.Paulo e Estado de S.Paulo.
Avaliamos retrospectivamente notícias relacionadas à saúde publicadas nas versões eletrônicas de ambos os
jornais por um período de três meses. Foram analisadas também a presença de conhecimento prévio sobre
o assunto, citação do periódico científico, contextualização nacional e referência a produtos/empresas.
[50] Os resultados mostraram que artigos sobre pesquisas científicas corresponderam a 56,7% e 20,4% de todos
os artigos relacionados à saúde publicados pela FSP e OESP, respectivamente. A FSP publicou mais artigos
sobre estudos nacionais (FSP, 56,4%; OESP, 7,9%) e teve a maioria dos artigos (98,2%) escritos pelo staff do
jornal. A FSP também contextualizou melhor seus artigos à realidade brasileira.
Criação de estratégias
[55] A maioria dos artigos do OESP1 (93,1%) era originada de agências de notícias. O OESP apresentou uma
maior tendência em citar o nome do periódico onde o estudo foi publicado, tinham títulos mais otimistas,
mas houve pouca contextualização nacional do tema em seus artigos, mesmo entre aqueles originados de
agências de notícias nacionais.
Cerca de um terço dos artigos em cada um dos jornais foi dedicado ao tema “estilo de vida e comportamento”,
[60] desconstruindo uma velha crença de que o jornalismo em saúde é voltado de forma predominante às
doenças. Os temas “câncer” e “doenças cardiovasculares” foram mais abordados pela FSP, enquanto o tema
“genética e pesquisa experimental” foi mais explorado pelo OESP. Artigos que mencionam produtos e
equipamentos de forma positiva foram mais presentes no OESP, mas essa diferença não foi significativa.
A importância da mídia para a saúde da população não deve ser subestimada, já que ela é uma das principais
[65] fontes de informação sobre saúde. O conteúdo divulgado influencia comportamentos, efeito que é ainda
mais relevante numa sociedade que cada vez mais lida com a saúde como se fosse um produto de consumo.
TEIXEIRA, Ricardo. Observatório da Imprensa. Jornal de debates, n. 711. 11/09/2012. Disponível em: https://www.observatoriodaimprensa.com.br/jornal-de-debates/_ ed711_a_importancia_da_midia_para_a_saude_da_populacao/. Acesso em 27/04/2023. Adaptado.
No primeiro parágrafo, as palavras “influenciar”, “influência” e “influencia” são uma marca estilística do enunciador para: