TEXTO:
A médica que prescreve poesia na lida diária com a morte
Angustiada porque seu Antônio não conseguia
contar sua história — as dores eram grandes demais —,
a então terceiranista da Faculdade de Medicina da USP
(FMUSP) procurou o professor para saber se havia algum
[5] remédio que pudesse aliviá-lo. “Ele fez uma cara de
irritado e disse: ‘Eu já tinha dito que era um paciente
terminal. Você sabe o que é um paciente terminal?’ Eu
disse que sim, mas que ele estava com dor. Aí o
professor falou que não tinha nada para fazer”, conta
[10] Ana Cláudia. “Não? Ele está morrendo de dor. Não tem
nada para aliviar a dor agora?” Aí ele respondeu que
não, que, se eu desse o remédio para dor, o fígado não
aguentaria. Eu perguntei: “Mas você não está me dizendo
que não tem mais jeito? Que diferença faz salvar o
[15] fígado dele porque não demos analgésico?” Bom, tomei
uma baita de uma cravada…”
“Cuidados paliativos não são abandono; pelo
contrário, nós dobramos a escala do paciente.” Em
outras palavras, os cuidados paliativos focam o conforto
[20] e o bem-estar do paciente e dos familiares quando se
sabe que a doença não responde mais aos tratamentos
convencionais e levará ao desfecho inevitável. Eles
representam o contrário da obstinação terapêutica, em
que todos os recursos tecnológicos são utilizados para
[25] manter a sobrevida — num quadro que, não raro, se
traduz numa pessoa inconsciente cujas funções
orgânicas só se sustentam porque ligadas a aparelhos.
É por essa razão que profissionais de várias
correntes defendem que a obstinação terapêutica —
[30] ou distanásia — nada tem a ver com prolongamento da
vida, mas sim com mero adiamento artificial da morte,
causando ainda mais sofrimento ao paciente e à família.
HEBMÜLLER, Paulo. A médica que prescreve poesia na lida diária com a morte. Disponível em:<http://www5.usp.br/10424/a-medica-queprescreve-poesia-na-lida-diaria-com-a-morte/>. Acesso em: 25 nov. 2014.
A partir da leitura do texto, é correto afirmar que os cuidados paliativos