TEXTO
A mulher que comeu o amante
Minueto em fó menor
[...]
Era questão de ponto de vista. Podia matar sumariamente que ninguém saberia jamais. Mas ele já se viciara com a justiça. Precisava achar uma desculpa, um pé qualquer para justificar seu crime e começou a nutrir um ódio feroz pelo velho.
Foi Camélia que propôs um dia: – Bamo matá o cujo?
De tarde, o velho estava agachado, santamente despreocupado, cochilando na porta do rancho, quando o primo deu um pulo em cima dele, e numa mão de aloite desigual, sojigou o bruto, amarrou-lhe as mãos e peou-o. O velho abriu os olhos inocente e perguntou que brinquedo de cavalo que era aquele.
— Que nenhum brinquedo, que nada, seu cachorro! ocê qué me matá, mais in antes de ocê me jantá eu te armoço, porqueira. Vou te tacá ocê pras piranhas comê, viu!
Januário pediu explicação: – apois se é pra móde a muié ocê num carece de xujá sua arma. Eu seio que ocês tão viveno junto e num incomodo ocês, mas deixa a gente morrê quando Deus fô servido. – Depois fez uma careta medonha e seus olhos murchos, cansados, encheram-se de lágrimas, que corriam pela barba branca e entravam na boca contraída
O moço, porém, falava com uma raiva convicta, firme, para convencer a si mesmo da necessidade do ato:
— Coisa ruim, cachorro, farso.
A covardia, a fraqueza do velho davam-lhe força, aumentavam a sua barbaridade. E foi daí que ele carregou Januário e o atirou ao poço, entre os garranchos e as folhas podres.
Uma lágrima ainda saltou e caiu na boca de Camélia que estava carrancuda e quieta atrás do primo. Ela teve nojo, quis cuspir fora, mas estava com tanta saudade de comer sal que resolveu engulir.
O corpo de Januário deu uns corcovos elegantes, uns arrancos ágeis; depois uns passos engraçados de cururu ou de recortado e se confundiu com o sangue, com os tacos de porcaria.
[...]
(ÉLIS, Bernardo. A mulher que comeu o amante. In: ______. Melhores contos. 4. ed. São Paulo: Global, 2015. p. 20-21.)
No trecho do Texto “você qué me matá, mais in antes de ocê me jantá eu te armoço, porqueira.
Vou te tacá ocê pras piranhas comê, viu!”, a alternativa que indica corretamente o fenômeno de natureza sintática caracterizador do falar goiano, representado pela fala da personagem, é a seguinte: