Texto A
O velho quando aquilo aconteceu, trancou-se em
si mesmo. Não era homem de conversas, sempre
calado em seu canto, morando no quarto dos fundos
que o pequeno quintal separava da casa. Ali ficava o dia
[5] inteiro, no quarto e no quintal, a tocar a sua sanfona,
como a esperar a morte e que todos o esquecessem.
Saía à noitinha, depois da janta, arrastando os pés
na alpercata de couro, para o passeio no Largo da
Palma. A casa, quase na curva do Gravatá, ficava a
[10] alguns metros do largo. Chegava sem pressa, passo a
passo, como se custasse levar o corpo magro e leve.
Respirava forte para sentir o cheiro do incenso que,
vindo da igreja, se misturava com o dos pãezinhos de
queijo. Era ao retornar, lá pelas oito horas da noite,
[15] que demorava um pouco na casa, como a visitar a
filha e o genro na sala de jantar.
FILHO, Adonias. Um avô muito velho. O largo da Palma. Disponível em: /Users/marci/Downloads/[removed]-largo-da-palmaadonias-filho-pdf p. 52. Acesso em: 13 dez. 2022.
Texto B
Um dia, vô não me veio chamar na cama como
fazia. Abri os olhos e não ouvi o intenso canto de
pássaros da manhã. Era tarde, as réstias de sol
entrando pelas telhas vãs me mostravam. Vô perdera
[5]a hora? Meu coração apertou como nunca eu sentira.
Minhas lágrimas inundaram o sol que fazia lá fora.
No quarto ao lado, vô dormia, o semblante plácido
no corpo fatigado, para sempre...
De tardinha, quando retomei o sentido das
[10] coisas, as cigarras teimavam em cantar. O enterro de
vô seguia. Mas eu o acompanhei só com os olhos,
que enfim secavam. Ao fundo, ao final de tudo, o rio
enchia rápido com a fúria das vinganças. Coloquei
as ferramentas no carrinho, aprumei o corpo, segurei
[15] firme as alças e continuei. O chiado da roda era um
gemido e uma lembrança.
FONSECA, Aleilton. O avô e o rio. Desterro dos Mortos. Bahia, Itabuna: Via Litterarum, 2012, p. 20.
Considerando-se os fragmentos no contexto global das obras O Largo da Palma e O desterro dos mortos, são afirmações procedentes sobre elas
I. Escritos por autores baianos, os fragmentos constituem narrações com diferentes pontos de vista narrativos. O texto A apresenta um narrador onisciente, enquanto o B, uma personagem narradora.
II. O texto A é considerado novela, por apresentar, em sua totalidade, um maior número de personagens em relação ao Texto B, classificado como conto.
III. A temática narrativa dos fragmentos gira em torno da velhice e da morte, ambas situações imperativas da própria vida. No Texto A, a presença da morte dá-se de maneira sucessiva, algo premonitório na vida da personagem, tanto quanto na narrativa do Texto B.
IV. As personagens do Texto A atuam em um universo múltiplo tanto de tempo quanto de espaço, diferentemente do Texto B, em que elas agem em um espaço e tempo definidos.
V. Por meio de seus personagens avôs, a velhice apresentase como uma precursora da morte física iminente, fato que se concretiza nas duas narrativas.
A alternativa em que todas as afirmativas indicadas estão corretas é a